18 setembro 2021

[Resenha] Notas sobre o luto - Chimamanda Ngozi Addichie

Escrito após a morte do pai de Chimamanda Ngozi Adichie em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19 que mantinha distante a família Adichie, Notas sobre o luto é um poderoso relato sobre a imensurável dor da perda e as lembranças e resiliência trazidas por ela.

Consciente de ser uma entre milhões de pessoas sofrendo naquele momento, a autora se debruça não só sobre as dimensões familiares e culturais do luto, mas também sobre a solidão e a raiva inerentes a ele. Com uma linguagem precisa e detalhes devastadores em cada capítulo, Chimamanda junta a própria experiência com a morte de seu pai às lembranças da vida de um homem forte e honrado, sobrevivente da Guerra de Biafra, professor de longa carreira, marido leal e pai exemplar.

Em poucas páginas, Notas sobre o luto é um livro imprescindível, que nos conecta com o mundo atual e investiga uma das experiências mais universais do ser humano.


                                    Livro: Notas sobre o luto|| Autor: Chimamanda Ngozi Addichie
Editora: Companhia das Letras ||Ano: 2021 || Tradução: Fernanda Abreu
 Gênero: Autobiografia ||Classificação:  5 estrelas || Resenhista: Karina


Esse semestre na faculdade, eu (Karina) estudei teoria literária e isso mudou completamente minha perspectiva sobre esse livro. Já faz um tempo que a Companhia das Letras tem publicado ensaios, em formatos de livros pequenininhos, e aqui no blog vocês podem conferir alguns títulos da Chimamanda e do Aílton Krenak. 

O que sempre me surpreende é como uma palestra, ou um ensaio pode conter tanto poder de transformação e identificação...e é ai que entra a teoria literária e o conceito de memória e de texto de auto ficção que falam sobre a escrita de si. 

 Talvez seja possível explicar o fato de que a literatura pode causar grandes emoções às pessoas que jamais vivenciaram aqueles fatos descritos; podemos exercer a empatia através de memórias que não são nossas, como por exemplo no livro ensaio Notas sobre o luto.

 Em Notas sobre o Luto, a memória autobiográfica de Chimamanda  nos apresenta sua história com o pai a partir do momento em que é informada via zoom (o aplicativo), pelo irmão, que o pai faleceu; aqui cabe o recorte que essa perda foi vivida em um momento em que o planeta vive uma pandemia e o ir e vir esbarra em aeroportos fechados, em que fronteiras estão bloqueadas e a morte se apresenta além da falta que essa pessoa passará a fazer. 


 A morte nesse cenário irá moldar as experiências do existir que virá da ausência do pai, suas memórias antes revisitadas com alegria, agora precisam se adequar a dor que é perder alguém; é através dos relatos de como a dor física pode evocar lembranças que a autoficção remonta quem Chimamanda foi e é. No breve período que compreende da morte até o enterro, as memórias recontam quem o pai foi e como isso implica nas tradições de sepultamento da cultura Igbo. 

 Esses fragmentos de personalidade revividos estão atrelados ao que a autora viveu com o pai na infância e adolescência, ao que testemunho da relação do pai com os irmãos ou do que foi vivido por ele mesmo antes da existência dela (que lhe foi passado através das memórias de família). Nessas notas sobre seu luto em particular podemos ver os relatos e lembranças sob a ótica  da memória individual quando CHIMAMANDA relata:

 “É claro que me lembro de como meu pai sempre dizia “deixa pra lá” para fazer com que nos sentíssemos melhor em relação a alguma coisa, mas o fato de Okey também se lembrar faz aquilo parecer verdade outra vez [...] não, eu não estou imaginando coisas. Sim, meu pai era mesmo maravilhoso. ESTOU ESCREVENDO SOBRE o meu pai no passado, e não consigo acreditar que estou escrevendo sobre meu pai no passado.”

 Enquanto Chimamanda recorre às memórias para descobrir como se portar em sua nova realidade, a autoficção dela me acertou em cheio pois tentei imaginar quantas pessoas estão passando pelo mesmo processo exatamente agora. Dentre todos os conceitos passíveis de discussão, memória parece ter um caráter quase que incontestável de organizar quem um dia fomos, quem somos hoje e quem seremos quando não mais estivermos aqui. E é exatamente por isso que esse pequeno livro mexeu tanto comigo, vivemos um momento atual que as crises estão todas afloradas, que os extremos se enfrentam todos os dias, e o que sobrar disso seremos obrigados a reviver como nossas próprias memorias. 

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