16 setembro 2021

[Resenha] Enciclopédia Negra - Lilia Moritz Schwartcz, Flávio dos santos Gomes e Jaime Lauriano

 

Nesta Enciclopédia negra, Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz passam em revista a história do Brasil, da colonização aos dias atuais, a fim de restabelecer o protagonismo negro. E o fazem alcançando o que há de singular, multifacetado e profundo na existência particular de mais de quinhentos e cinquenta personagens. São profissionais liberais; mães que lutaram pela alforria da família; ativistas e revolucionários; curandeiros e médicos; líderes religiosos que reinventaram outras Áfricas no Brasil, pessoas cujas feições foram apagadas pela história. Por isso, 36 artistas negros, negras e negres criaram retratos inspirados pelos verbetes desta enciclopédia, aqui reunidos em um belíssimo caderno de imagens. Em um momento de produção e disseminação errática de informações, esta obra contribui para conformar um seguro repositório de experiências individuais e coletivas às quais – como pessoas e como sociedade – podemos recorrer em busca de inspiração e orientação.


 Livro: Enciclopédia Negra|| Autor: Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz  
Editora: Companhia das Letras || Ano: 2021 ||  Gênero: Biografias 
Classificação:  5 estrelas || Resenhista: Karina

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Livros foram feitos para nos entreter, mas também para nos fazer pensar sobre um assunto ou história a cada nova página. E foi a partir dessa constatação que eu decidi que as minhas #TBRs seriam diversificadas. Eu gosto de livros que me tirem da zona de conforto, eu gosto de ter o coração derretido por um personagem que não exista ou ser inspirada a descobrir alguns heróis (os reais) que não usam capa e, por esse motivo cheguei a Enciclopédia Negra. Gostaria que no Brasil (em especial) todos pudessem ler, que todos quisessem conhecer, reconhecer e falar sobre os personagens reais que nos conferiram identidade cultural. O termo enciclopédia é definido pelo dicionário como:
substantivo feminino
  1. 1.
    conjunto de todos os conhecimentos humanos.
  2. 2.
    obra que reúne todos os conhecimentos humanos ou apenas um domínio deles e os expõe de maneira ordenada, metódica, seguindo um critério de apresentação alfabético ou temático.


Partindo desse conceito, já na orelha do livro, os autores afirmam que esse projeto nasceu com o intuito de (re)estabelecer as feições de muitos personagens que foram apagados da história. O livro é constituído de 416 verbetes que revisitam a vida de mais de 550 personagens negros. Então essa é uma obra para se ler aos poucos, um pedacinho todos os dias.

Um grande e constrangedor silêncio habita a maior parte dos arquivos brasileiros e coloniais,e, sobretudo, dos nossos manuais e livros didáticos.Neles, enquanto os registros de atos empreendidos pela população branca estão por toda parte, as referências acerca da imensa população escravizada negra que viveu no país, desde meados do século XVI até praticamente o fim do século XIX, são bem escassas.


Ainda na introdução desse volume os autores deixam claro que a intenção nunca foi cobrir todas os personagens ou exaurir o conteúdo, mas servir de guia para novas pesquisas, servir de incentivo para um resgate de identidade tão rico e preciso. E foi exatamente assim que me senti durante a leitura desse livro. O fato é que alguns personagens/pessoas tem mais detalhes em seus registros, mas até os mais vagos ainda nos fazem ficar intrigados sobre onde estaríamos hoje como sociedade se essas vozes não tivessem sido silenciadas por tanto tempo. Decidi abrir aleatoriamente o livro e deixar o acaso apresentar uma dessas pessoas para vocês... sem mais delongas:


Maria Odília Teixeira 1884-?, baiana de São Félix do Paraguaçu em Dezembro de 1909 formou-se em medicina e tornou-se a primeira médica negra do Brasil, cinco anos após a conclusão de seu curso passou a lecionar obstetrícia na instituição tornando-se também a primeira professora Negrada Faculdade de Medicina da Bahia.

Em um segundo round de aleatoriedade abri na página que apresenta: 

Amália Augusta d Lima Barreto 1862-? , mãe do escrito Lima Barreto (1881-1922) [...] era uma típica representante da terceira geração de mulheres originalmente vindas da África para trabalhar como escravizada e que lutaram por manter sua família por perto.

Enquanto eu descobria as personalidades foi impossível me questionar o porquê nunca ouvimos falar dessas pessoas na escola, e aí, precisamos enfrentar o fato de que o Brasil foi e é, um pais preconceituoso, que o racismo existe, que a forma velada de racismo mata ainda hoje milhões de pessoas pretas. E é exatamente por esse motivo que em um país onde cada dia mais as informações são deturpadas que precisamos que esse livro esteja nas escolas, nas rodas de conversas entre os mais vendidos, conhecidos e debatidos.

Entre tantas e tantas histórias o livro ainda traz ilustrações de mais de 36 artistas negros(as) que criaram retratos inspirados nas descrições dos verbetes.

Seria impossível detalhar todas as informações em uma única resenha, ou elencar os que eu achei mais interessante, porque essas histórias vão muito além de feitos durante uma vida. Resgatar essas histórias é um ato de resistência.

Esse é sem dúvida um ótimo livro para se ter, se ler e presentear. E você gostou da proposta, temos também o livro da Jarid Arraes - Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

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