06 outubro 2020

[Resenha] A cantiga dos pássaros e das serpentes - Suzanne Collins



É a manhã do dia da colheita que iniciará a décima edição dos Jogos Vorazes. Na Capital, o jovem de dezoito anos Coriolanus Snow se prepara para sua oportunidade de glória como um mentor dos Jogos. A outrora importante casa Snow passa por tempos difíceis e o destino dela depende da pequena chance de Coriolanus ser capaz de encantar, enganar e manipular seus colegas estudantes para conseguir mentorar o tributo vencedor.

A sorte não está a favor dele. A ele foi dada a tarefa humilhante de mentorar a garota tributo do Distrito 12, o pior dos piores. Os destinos dos dois estão agora interligados – toda escolha que Coriolanus fizer pode significar sucesso ou fracasso, triunfo ou ruína. Na arena, a batalha será mortal. Fora da arena, Coriolanus começa a se apegar a já condenada garota tributo... e deverá pesar a necessidade de seguir as regras e o desejo de sobreviver custe o que custar.

Livro:  A cantiga dos pássaros e das serpentes ||  Autor:  Suzanne Collins
Tradutor: Regiane Winarski ||Editora: Rocco
Ano: 2020 || Assunto: Distopia
 Classificação:  5 estrelas || Resenhista: Sheila

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Eu demorei a escrever essa resenha, porque precisei de tempo para entender e digerir a história, não queria escrever levianamente, ou talvez estivesse tentando achar alguma parte boa em Snow.

A história começa em uma Panem ainda arrasada, com qualidade de vida não muito melhor que a dos distritos. Arrasada pela guerra, famílias lutam pela sobrevivência, a de Snow tem um nome de prestígio e migalhas à mesa.

As roupas boas estão no fim ou apertadas, sua prima Tigris e sua avó fazem malabarismos para manter as aparências até que a formatura de Snow venha e então, ele possa ter um emprego para sustentar a família. A Tigris aqui apresentada, a prima de Snow, é a mesma que esconde Katniss na trilogia Jogos Vorazes e choca você constatar isso no livro.

O foco do livro se dá no início da elaboração dos jogos e mais uma vez, é brutal. Snow consegue o posto de estagiário dos Jogos Vorazes e os conflitos começam. Ele tem um colega extremamente correto, puro de alma e revolucionário para os padrões da capital. Sejanus não vê razão nos jogos e quer a unificação de tudo; suas ideias são pacíficas e de integração, ele é bom por natureza e não se corrompe, ele tem um pai que pôde colocá-lo em qualquer cargo que desejar, mas apenas deseja distancia de tudo aquilo. Nos personagens de Tigris, Sejanus, e Snow nós vemos vários níveis de bondade e que o meio não muda a todos, nós somos o que realmente despertamos dentro de nós.

Os jogos começam de maneira desajeitada e Snow é indicado como mentor do distrito 12, e pensa nisso como um castigo. Segundo ele, o diretor da escola o persegue e ao longo do livro, descobrimos que ele e o pai de Snow foram muito amigos e que em uma noite de bebedeira, o diretor inventou, como uma grande brincadeira de mau gosto, a ideia dos Jogos Vorazes. O pai de Snow alimentou os pensamentos bêbados do colega, os escreveu e os enviou ao governo e assim nasceu os Jogos Vorazes: do pensamento de um bêbado, que quando ficou sóbrio, viu o desastre da situação e entendeu que teria que viver com a fama de ter sido o criador de algo odioso e também que o amigo não existia, ele fora apenas um aproveitador cruel e sádico. 

Snow se envolve emocionalmente com sua protegida do Distrito 12. Lucy Gray Baird é diferente e diz não ser do distrito 12,  mas de uma família circense. Ela também canta, o  que intriga Snow a princípio, e ele acaba  tentando arrumar um jeito de fazê-la ganhar. Lucy conquista Snow um pouco a cada dia, e quando percebe, ele já se apaixonou.

Os jogos desandam e acabam por estragar todos os planos de Snow que então vira guarda, o pior serviço possível e indigno para alguém como ele.

Ele escolhe o distrito 12 e com todos os problemas, ele reencontra a moça alvo de sua paixão e tudo desanda mais uma vez. Podemos entender o porquê ele odeia Katniss, ela vem do distrito que ele conhece, ela canta, ele sabe o que o nome dela significa e conhece a Música da Árvore, cantada pela voz do tributo que pensa ter amado.

A reviravolta do final leva Snow para os primeiros degraus do topo em que o conhecemos na trilogia e nos faz pensar e repensar na construção do ser humano como obra do meio em que vive ou de seu caráter.


Em primeira pessoa, o livro é relatado por Snow, então você sabe exatamente como ele pensa e acompanha a construção de um monstro. É perceptível que o sistema de Panem também privilegia e joga para o topo pessoas cruéis, porque acredita fortemente que essas pessoas são a solução para se controlar as pessoas nos distritos.

Na academia, Snow estuda por boas notas e tenta ao máximo se sobressair, não tendo o apoio dos pais que estão mortos, tem um sentimento de afeto pela prima e pela avó que é uma prima-dona, estilo diva aposentada, e que se ausenta dos problemas reais da casa, seu hobby é plantar rosas brancas, por isso elas tem uma simbologia forte para o Snow e por vezes, baseados nos laços familiares dele. Mesmo com essas demonstrações, falhei em tentar imaginar um personagem que tivesse algo para se ter compaixão.

O luxo que os participantes são apresentados do trem até os alojamentos e locais de treino inexiste. O sistema todo é precário e mal conduzido, as arenas cheias de tecnologias que nos acostumamos na trilogia, ainda não foram inventadas e o palco de um antigo teatro é o espaço suficiente para que a carnificina aconteça, e ela é brutal. Eles buscam por melhores índices de audiência e forma de trazer a capital para ver os jogos como os conhecemos, e a tristeza é grande porque sabemos que de fato conseguiram glamourizar a morte e fazer dela um espetáculo.

Quero deixar claro que o livro é muito singular, dependendo do leitor, ele pode achar rendições e justificativas para o comportamento do personagem central e de outros como a situação financeira, fome e responsabilidade; confesso que tendi a não perdoar os fatos.

A cantiga dos pássaros e das serpentes conta o nascimento de um vilão, traz as dualidades de ser bom e mau, e de até quanto você pode flexionar um caráter para querer ascender na vida; o quanto alguém pode ser cruel, para subir os degraus que o levarão ao topo? 

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