24 maio 2020

[Resenha] O Sentido de um fim - Julian Barnes

O que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu. A frase, dita por Tony Webster, protagonista e narrador de O sentido de um fim, resume bem a ideia central da trama criada por Julian Barnes. Ao reavaliar seu passado, o personagem descobre que há contas a acertar, sentimentos que não foram esquecidos e fatores surpreendentes que ameaçam a tranquilidade de sua vida de aposentado.
Vencedor do prestigiado Man Booker Prize 2011, O sentido de um fim é a história de um homem que se esforça para passar a limpo o seu passado. Escrito com a precisão e a habilidade que são a marca de Julian Barnes, um dos mais importantes escritores da atualidade, o livro aborda, de forma brilhante, a sensação de instabilidade cronológica numa elaborada reflexão sobre o envelhecimento, a memória e o remorso.
Na juventude, Tony, Alex e Colin eram os melhores amigos na escola. Com a chegada de Adrian Finn, um rapaz tímido, um pouco mais sério e extremamente inteligente, o trio inseparável se torna um quarteto, que jura manter para sempre o laço que os une. Com fome de livros e de sexo, os rapazes acreditavam que suas vidas ainda estavam por começar, sem se darem conta de que tudo já era para valer.

Livro: O Sentido de um fim ||  Autor: Julian Barnes
Editora:  Rocco || Ano: 2012 ||  Gênero:  Ficção inglesa, Memória
 Classificação:  5 estrelas ||  Resenhista: Amanda

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O quão confiável é a nossa memória? Como podemos saber se o que nos lembramos de fato aconteceu conforme as nossas recordações, sem provas documentais disso? E o quanto das coisas que nos recordamos, acabam deturpadas pela nossa própria perspectiva?

Julian Barnes nos trás um livro muito filosófico, com muitos questionamentos, sobre fato e memória. O que de fato aconteceu? O que nós temos de lembrança desse ocorrido? O quanto essa lembrança é confiável, se ela foi interpretada de uma única perspectiva, a minha, a sua? Quantas vezes já nos desentendemos com alguém por causa de alguma coisa e quando paramos para conversar vimos que alguém de alguma forma, havia interpretado mal o que dissemos ou fizemos, sem que tivéssemos aquela intenção? 

O livro se dá início com Webster e suas lembranças da juventude, seu grupo de amigos, muito inteligentes e com futuros promissores, cada um segue sem rumo. Mas um amigo em particular se destacava. Como todo grupo, há sempre alguém a quem os outros procuram, a quem seguem e Adrian era o prodígio de sua classe e a quem todos queriam se aproximar para impressionar, todos do grupo queriam ser reconhecidos como seu melhor amigo. 
Sua áurea de isolamento, lhe implicava algum mistério e sua inteligência sempre acabava sendo associada com um senso de superioridade que podia ou não de fato existir.

"Naquela época, nos imaginávamos presos numa espécie de gaiola esperando para sermos soltos na vida. E quando esse momento chegasse, as nossas vidas - e o próprio tempo - iriam se acelerar. Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, que algum benefício já havia sido obtido, algum dano já havia sido causado? E, também, que seríamos soltos numa gaiola apenas maior, cujas fronteiras à princípio seriam imperceptíveis."

Quando cada um segue seu caminho, outras lembranças tomam forma na mente de Webster, sua primeira namorada Verônica, seu estranho relacionamento com a família, seu interesse calculado em Adrian, após introduzida e apresentada ao velho grupo de amigos… 

E, com o término com Verônica, vem a carta de Adrian contando que ele e Verônica estão saindo, surpreendendo um total de 0 pessoas.

Verônica é nossa Capitu, uma personagem que desde o início nos é apresentada como uma mulher que gosta de jogar com a mente de Webster. Seduz, sem nunca se entrega por completo. Induz, mas dificilmente exige com todas letras sua vontade. Impõe de forma quase subliminar seus interesses, mas sempre muito calorosa quando sua vontade é atendida. Sem dúvidas temos a impressão de que Verônica é uma mulher dissimulada, que usa as pessoas conforme sua conveniência. Agora, isso é quem Verônica é de fato ou a visão de Webster? 

"Histórias é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação."

O mais incrível deste livro, é sobre como Webster desde o início induz o leitor, conforme suas próprias impressões dos acontecimentos, ao mesmo tempo, se firmando como um narrador não confiável, pois, já não tem as cartas que recebeu há tantos anos e todos esses acontecimentos estão impressos unicamente em sua lembrança.

Nós, leitores, podemos pensa em um primeiro momento, ora, mas qual o problema com isso? Acontece que, durante a trajetória de cada um e sua particular vivência, adquirimos nossas experiências, traumas e visões de vida distintas e que nos fazem enxergar as coisas de acordo com essas perspectivas próprias que podem ou não refletir a realidade vivenciada.

Verônica era de fato uma mulher interesseira, calculista e manipuladora? Ou essa era a visão que Webster tinha de Verônica baseado em seus próprios traumas do passado e vivências? E tudo o mais que aconteceu antes e depois pode ser de fato confiável, sem provas documentais que corroborem com essas lembranças? Quais as certezas que temos? 

"Na verdade essa questão de imputar responsabilidade não é uma espécie de desculpa? Nós queremos culpar um indivíduo para que todos os outros sejam isentos de culpa. Ou culpamos um processo histórico como forma de exonerar os indivíduos. Ou é tudo um um caos anárquico, com a mesma consequência. Eu tenho a impressão de que existe, existiu, uma cadeia de responsabilidades individuais, todas elas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todo mundo possa simplesmente culpar todo mundo. Mas, é claro, meu desejo de atribuir responsabilidade pode ser mais um reflexo do meu próprio modo de pensar do que uma análise justa do que aconteceu. Esse é um dos principais problemas da história, não é, senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador a fim de entender a versão que é colocada diante de nós."

A única certeza ao terminar o livro é da fragilidade da memória humana e sobre como os fatos podem ser facilmente descartados e manipulados por ela, moldados e re-molda dos conforme o passar dos anos, até que o indivíduo não saiba mais a diferença entre a memória real e a fabricada a qual se convenceu de que aconteceu para sua conveniência. 

Esse foi um livro de um primor e acuidade extraordinário. Acabamos de ler, com nossas próprias teorias da história. O livro só possui 160 páginas, tentei fazer uma resenha completa, mas sem dar spoilers, que ainda assim cativasse os leitores para lerem, porque acreditem, vale muito a pena!

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4 comentários :

  1. Amanda!
    É por isso que mantenho uma diário, onde coloco os acontecimentos e minhas impressões e mesmo que seja só do meu lado, o fato está lá registrado.
    Adoro livros que nos fazem refletir e tem esse cunho filosófico.
    cheirinhos
    Rudy

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    Respostas
    1. Olá, Rudynalva!
      Exatamente isso. Eu costumava escrever diários como desabafo, mas faz anos que não escrevo ><
      Livros filosóficos são ótimos provocadores, não é? Suscitam questões que antes nunca tínhamos parado para pensar profundamente. Acho que deixam sua marca <3
      Beijos!

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  2. Acho que essa não seria uma boa leitura para mim, fiquei confusa até com a sinopse/resenha imagina lendo o livro todo haha
    Ouvir sobre algo que aconteceu é sempre duvidoso, ainda mais quando contado somente por um ponto de vista. Acho que, para quem gosta de leitura que induz a reflexão, seria um grande livro.

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  3. Olá! Essa é primeira vez que vejo falar desse livro, parece ser bem interessante, curto esse tipo de leitura que faz a gente pensar. Bjs

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