04 abril 2020

[Resenha] Pequeno Manual Antirracista - Djamila Ribeiro


Dez lições breves para entender as origens do racismo e como combatê-lo. Neste pequeno manual, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em dez capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas. Já há muitos anos se solidifica a percepção de que o racismo está arraigado em nossa sociedade, criando desigualdades e abismos sociais: trata-se de um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato de vontade de um sujeito. Reconhecer as raízes e o impacto do racismo pode ser paralisante. Afinal, como enfrentar um monstro desse tamanho? Djamila Ribeiro argumenta que a prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas. E mais ainda: é uma luta de todas e todos.


Livro: O Voluntário de Auschwitz|| Autores: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras || Classificação: 5 estrelas || Resenhistas: Karina 
 Ano: 2019 || Gênero:  Política / Sociologia

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Antes de falar especificamente sobre o que o livro me levou a pensar, queria deixar a dica: prestem atenção nesses livros pequenininhos que a companhia das Letras tem publicado, seja o da Djamila, o da Chimamanda ou o do Ailton Krenak... eu nunca mais fui a mesma pessoas depois dessas páginas pequenininhas!

Não há muito o que falar desse livro em termos de como se constrói o plot, até porque a histórias dessas poucas páginas não é invenção da cabeça de ninguém, e uma história minha, sua e de todo brasileiro, seja você negro, branco ou índio. O Brasil é um país racista e precisamos não só aceitar esse fato como combatê-lo diariamente. 

Disseram-me que a população negra era passiva e que "aceitou" a escravidão sem resistência.Também me disseram que a princesa Isabel havia sido sua redentora. No entanto, essa era a história contada do ponto de vista dos vencedores, como diz Walter Benjamin. O que não me contaram é que o Quilombo dos Palmares, na serra da Barriga, em alagoas,perdurou por mais de um século, e que se organizaram vários levantes como a reforma da resistência à escravidão, como a Revolta dos Malês e a Revolta da Chibata.

Por favor não caia na armadilha do: "Agora tudo é mimimi", "a onda do politicamente correto", se for para se deixar levar, deixe se levar na máxima "Lugar de fala" e/ ou "Como posso usar meus privilégios para dar voz a quem precisa". Por mais que comportamentos sejam normalizados e banalizados, o livro em suas pequenas lições nos convida a refletir sobre como atitudes e falas afetam outras pessoas, seja ou não, a nossa intenção direta.




O livro está didaticamente dividido em:"Informe-se sobre o racismo", "Enxergue a negritude", "Reconheça os privilégios da branquitude", "Perceba o racismo internalizado em você", "Apoie politicas educacionais afirmativas" , "Transforme seu ambiente de trabalho", "Leia autores negros", "Questione a cultura que você consome", "Conheça seus desejos e seus afetos", "Combata a violência racial" e "Sejamos todos Antirracistas". 

 Olhando para os títulos das "lições" parece tudo meio óbvio, não é? Mas deixa eu contar uma coisa que aconteceu na mesma semana que eu estava lendo esse livro: Estávamos eu e minha amiga Lívia, que é negra, dentro de uma livraria aqui em São Paulo só passando o tempo, pois ela mora no Rio e estava a trabalho em SP, estávamos parecendo duas doidas alucinadas pelos novos livros e aumentando freneticamente nossa lista de desejados, quando do NADA, um senhor bem idoso (que não é desculpa), branco, acompanhado de sua cuidadora parou abruptamente na frente dela e disse: Posso fazer uma pergunta?

Na hora eu já fiquei em alerta, pronta para retrucar o PORQUÊ ele estava parando ela, eu na minha inocência achei apenas que ele talvez tivesse achando que ela trabalhava na livraria, mas ainda sim, já fiquei em alerta... ela com toda a doçura que tem, parou e disse que ele poderia perguntar sim.

Eis que o senhor me solta: COMO É SER PRETO? EXISTEM MUITAS PESSOAS PRETAS no BRASIL? VOCÊ SOFRE MUITO? 

A Lívia lá respondendo o senhorzinho na MAIOR calma do mundo e eu assistindo aquela cena BIZARRA; a conversa se desenrolou por uns 5 minutos, e o senhorzinho ficava reafirmando (quero acreditar eu que com boa intenção) que ela nunca deveria se sentir menor do que ninguém, que todos deveríamos ser respeitados e a Lívia lá, parada, escutando tudo e ainda teve a delicadeza de dizer um: Muito obrigada senhor e eu nem sabia que estava precisando ouvir isso. 

Nunca me pararam em lugar nenhum para me perguntar se eu era Branca, como era ser Branca, como também nunca  me pararam em lugar nenhum para validar minha existência e só o fato do Sr. Olivio (SIM PASMEM, até os nomes por ironia do destino tinham que ser semelhantes) se achar no direito/dever de perguntar e validar outra pessoa, é mais que atestado de que temos um problema ENORME que precisa ser discutido.



Não é só um ataque de ódio direto que é racismo. Quando eu estava escrevendo essa resenha fui perguntar a Lívia se estava tudo bem por ela, em relatar o que tínhamos vivido e ela me respondeu: Claro Kah, quem sabe assim, as pessoas não tenham tanto medo de conversar sobre, vamos debater, compartilhar essa resenha, compartilhar esse livro, essas lições. 

Façamos nosso dever de casa, cobremos políticas de inclusão, cobremos punição a abusos de autoridades, vale lembrar que aquela família assassinada com 80 tiros por policiais, o crime segue sem punição. A professora de história da USP Liliam Schawartz que mantem um canal no Youtube, tem um vídeo curtinho que nos faz refletir sobre algumas expressões, confira:




O fato é que nenhum de nós nasceu completamente desconstruído, e que vivemos num mundo que tem tolerado erros e persistido em descriminações e intolerância século após século, vamos ter um longo caminho pela frente e esse é um caminho em que vamos errar e errar muito, mas já não dá mais para ser parte da turma dos "insentões". Informação é sempre a melhor arma, correndo o risco de ser repetitiva, devo dizer que essa foi umas das leituras mais importante que fiz ano passado.

Esse é um tipo de livro que eu adoraria poder sair por aí espalhando, e para quem tem interesse, no final da edição tem um catálogo bem extenso com obras semelhantes.  Aqui mesmo no ELB dá para conferir a resenha de Dicionario da Escravidão e Liberdade com organização de Lilial M, Schwarcz e Flavio Gomes. Qual autor negro que está na lista de leituras de vocês?

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5 comentários :

  1. Olá! Racismo sempre existiu e infelizmente vai continuar por muito tempo, aqui no Brasil ele era meio que velado, levado na brincadeira piada, hoje em dia as pessoas estão começando a enxergar o racismo, nas falas, expressões, ações, etc, você citou aí o que aconteceu com vocês, eu mesma já passei e presenciei cada situação, esse livro já está no topo da minha lista de leituras. Bjs

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  2. Karina!)
    Não sou negra (mas todos temos sangue de negros e índios em nosso DNA por causa da nossa colonização, nem era motivo para se ter preconceitos, concorda?), mas já me pararam também para perguntar como é ter vitiligo e ser PNE,e, como a Lívia, educadamente conversei com a pessoa e no final, expliquei que era um tipo de preconceito dela... ela ficou vermelha e se desculpou. Infelizmente as pessoas tem preconceito e não admito em pleno século XXI.
    Na minha lista está Chimamanda, estou com Americanah para ler.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Olá!
    O racismo vem de muito tempo e temos que combate-lo, mas as vezes penso se o pais esta indo pra frente ou apenas regredindo. Gostei do livro e com certeza vou querer ler.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  4. Excelente resenha parabéns! Por acaso vc saberia dizer qual é o gênero literário desse livro?

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    1. Oi, obrigada, então na pg de informações do próprio livro ele está classificado como sociologia, com sub tópicos de Antirracismo; relações raciais, politicas educacionais!

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