06 fevereiro 2020

[Resenha] Especial - Ryan O'Connell






O livro que deu origem à série Special, da Netflix.
Como se os desafios de ser um jovem gay com paralisia cerebral não fossem o bastante, Ryan O’Connell viveu todos os clichês de um Millennial. Ele passou a segunda década de sua vida estagiando para divas delirantes, engolindo todos os remédios que conseguia encontrar pelo caminho e tentando achar o amor verdadeiro — coff coff — no Grindr. Mas depois de tanta tentativa e erro, Ryan pode dizer, com propriedade, que mancou elegantemente todo o caminho para a vida adulta. Especial, seu (hilário) relato autobiográfico, é uma reflexão sobre o mundo cruel que espera jovens de vinte e poucos anos superprotegidos pelos pais e uma lição de como encontrar a si mesmo em meio às disputas por likes e seguidores.


Livro: Especial ||  Autor: Ryan O'Connell
Editora:  HarperCollins|| Ano: 2019 ||  Gênero:  Autobiografia, Memórias / LGBT / GLS 
 Classificação:  4 estrelas ||  Resenhista: Amanda

Sabe quando você acha que perdeu a vontade de falar sobre as coisas que você lê? Você lê, lê e lê, mas tudo parece mais do mesmo e nada te toca de verdade, te resgata aquela sensação de encantamento de quando você descobre algo incrível? 

Eu me sentia exatamente assim. E então eu li Especial, o livro autobiográfico (gênero que eu costumo fugir) mais genial, engraçado e sensível que eu já li. Fazia tempos que eu não amava um livro com tanta intensidade. Eu marquei tantas passagens, e mais do que isso, eu me senti tão... compreendida. Porque a gente tem uns momentos muito solitários na vida. O Ryan, mais do que todos, sabe bem disso. E todos presumem que por não ter nada de errado de fato acontecendo, que está tudo bem, mas às vezes você não tem nem com quem desabafar porque as pessoas não conseguem se identificar com o que você está passando e nem você consegue explicar com extensão tudo que está te magoando, porque a verdade é que nunca está acontecendo uma única coisa na vida da gente e a gente acha que está mal por uma coisa, mas depois de ler um livro assim a gente acaba percebendo que é por tudo, por todas as pequenas e grandes coisas que juntas acabam envolvendo e às vezes sufocando a todos nós. 

O livro já começa com uma crítica social sensacional sobre os pais superprotetores que querem dar tudo o que nunca tiveram aos seus filhos, criando os atuais baby boomers. 

“Todo mundo é responsável por suas indistintas crises de ansiedade, por seus relacionamentos superficiais, por sua falta de direção e por eu medo devastador de intimidade. Todo mundo é responsável, menos você. Então faça uma reverência e agradeça a tudo o que a nossa geração tornou possível. (…) Agradeça à solidão que irradia da tela brilhante do computador e à amarga surpresa de ter centenas de amigos no Facebook, mas ninguém com quem jantar.” 

A partir dessa crítica conhecemos nosso querido Ryan que, por causa de um erro médico durante o parto, tem paralisia cerebral. Mesmo sua deficiência sendo considerada mais leve do que a maioria das pessoas que possui paralisia, ele sempre foi tratado como especial e julgado como alguém incapaz de fazer as coisas que alguém “normal” poderia sozinho. 

Por causa disso, ele relata no livro, com humor, como muitas vezes se safou de desempenhar tarefas e atividades que ele não gostava ou eram chatas, o que culminou em um cabo de guerra entre seus pais. A mãe, sempre superprotetora e querendo fazer tudo para ele e por ele, e o pai, que tentava ao máximo forçá-lo a se superar e fazer as coisas, mesmo que saíssem erradas ou mal feitas, porque era importante que ele ao menos tentasse. 

Em alguns momentos senti certa culpa da parte dele, por acabar mais próximo do pai, mesmo sua mãe se dedicando incondicionalmente a ele, em sua extrema necessidade de estar lá e ajudar. 

“Então a moral da história parental parece ser: se não for próximo de seus filhos, eles vão crescer encantados por você e querendo sua aprovação. Mas se fizer de tudo por eles e os amar mais que qualquer outra pessoa jamais seria capaz, eles vão ignorar suas ligações. WTF?” 


Ryan relata de forma divertida sua necessidade de tentar encontrar alguém que passasse pelas mesmas coisas, alguém com quem pudesse se identificar, para logo em seguida se dar conta de que a maioria das pessoas com paralisia sofria de necessidades muito maiores de cuidados que ele, de forma que essas pessoas nunca poderiam ser alguém com quem ele pudesse de fato se lamentar de não conseguir, às vezes, comer sem fazer um pouco de sujeira. 

Mesmo não sofrendo de paralisia, sentimos sua solidão quando ele fala sobre como é difícil ser um adolescente, especialmente com deficiência, pois as pessoas normais não entendiam os problemas pelos quais ele passava e as deficientes que ele conheceu mal conseguiam se comunicar, quanto mais trocar histórias constrangedoras para que nenhum dos dois se sentisse tão mal sobre suas próprias histórias. 

Ele sempre caminhou entre fases de se aceitar, se sentir limitado e constrangido pela deficiência que carregava. E isso tudo enquanto tentava desesperadamente passar a imagem ao mundo de que não era deficiente. Quando sofre um acidente e é atropelado, ele considera isso uma coisa maravilhosa, um golpe de sorte até, porque aí começa a dizer as pessoas que o claudicar e os problemas físicos eram graças a esse acidente. De repente, ele não era mais o cara – como ele mesmo diz, e eu achei pesadíssimo – retardado. Agora ele era apenas a infeliz vítima de um trágico acidente. Tenho certeza que várias pessoas poderiam censurar esse comportamento, com o argumento de que ele deveria se aceitar como era, mas a maioria delas provavelmente nem sofre de nenhum tipo de deficiência, então o quê? 

Em seus anos de faculdade, ele fala sobre os amigos que fez e os que perdeu e como é fácil você acabar se perdendo simplesmente por não saber quem é. 

“Reinvenção nem sempre é sinônimo de amadurecimento. Às vezes é apenas sobre desistir e se tornar a pior versão de si mesmo.” 

Ele fala sobre como tudo bem não saber o que fazer depois da faculdade, de como se manter produtivo, sempre buscando se aprimorar e fazer o que gosta é importante, mas não deixa de observar que isso é bem mais fácil quando se tem uma boa reserva de dinheiro guardada. 

E o que eu mais gostei nesse livro foi exatamente isso, Ryan é extremamente crítico e sincero sobre tudo, inclusive sobre si mesmo. Ele não é perfeito, ninguém é e tudo bem. E abraça a todos com sua sensibilidade, quando nos conta da solidão que nos acompanha na juventude, dos inúmeros questionamentos e inseguranças sempre presentes. Ninguém é de fato especial, estamos todos perdidos tentando desesperadamente encontrar um rumo certo – mesmo que não exista um – um apoio em algo ou alguém que nos compreenda. E que nem sempre vamos achar, mas vamos lidar com isso e seguir em frente da forma que pudermos. Alguém está aí fora, sentindo exatamente a mesma coisa que você. Ninguém está realmente sozinho, ainda que nem sempre acompanhado.

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5 comentários :

  1. Oi!
    Não me importo com termos sem filtros usados em livros, desde que não sejam excessivos e sejam bem aplicados...
    Acho interessante o autor se expor e contar sobre suas dificuldades, mas sinto que ficou um tanto pejorativo de acordo com sua resenha.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Oi, Rudy!
      Olha, talvez até possa ter ficado um pouco, mas eu acho que ele está no lugar dele de fala, então é válido que ele se aproprie desses termos e use até como uma forma de escrachar o que muitos dizem todos os dias de forma deliberadamente maldosa ou pensam e se contém para não passarem por politicamente incorretos.

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  2. Olá! Pois eu, ao contrário de você, curto muito um livro autobiográfico, quando vi a chamada da série pra TV e fiquei sabendo que foi baseada em um livro, já fiquei bastante curiosa em conferi essa história e cada resenha que vejo dele me deixa ainda mais interessada. Bjs

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    1. Que bom, Milena. Também fiquei bem interessada na série! *-*

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  3. Olá!
    Eu já li varias resenha desse livro e muitos falam bem. Não tinha muito conhecimento e não sou muito de ler biografia, mas esse livro me chamou bastante atenção. Tem uma premissa ótima e com certeza vou querer ler e conhecer mais.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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