18 novembro 2019

[Resenha] Vozes de Tchernóbil - Svetlana Aleksiévitch




Em abril de 1986, uma explosão na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia então parte da finada União Soviética , provocou uma catástrofe sem precedentes: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera e a cidade de Pripyat teve que ser imediatamente evacuada. Tão grave quanto o acidente foi a postura dos governantes soviéticos, que expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os reparos na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, pereciam após poucos dias de serviço. Por meio das vozes dos envolvidos na tragédia, Svetlana constrói este livro arrebatador, que tem a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Uma obra-prima do nosso tempo. 


Livro:  Vozes de Tchernóbil || Autor: Svetlana Aleksiévitch
Editora: Companhia das Letras||Ano: 2016 || Tradução: Sonia Branco
Gênero: Não ficção
 Classificação:  5 estrelas || Resenhista: Karina
Esse é um livro difícil de ler, não que a linguagem usada seja rebuscada, mas o teor de sofrimento infligido é pesado. como são relatos de pessoas que sofreram todos os danos causados, a realidade entra na experiência de leitura sem nem pedir licença e se instala no nosso pensamento mesmo quando nem estamos lendo.

Svetlana ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2015 e quando você termina um livro da autora, fica bem claro o porquê dela merecer todos os prêmios, a maneira como a autora dá voz as grandes tragédias histórias é sensacional, o subtitulo do livro é: "a história oral do desastre nuclear" e é justamente o que você vai encontrar nas páginas, os relatos ajudam quem nasceu muito tempo depois a ter uma noção das proporções da tragédia, ao mesmo ponto que deixa clara a sensação de que talvez nunca saibamos o real poder de devastamento, porque muitos dos que sobreviveram ainda nem se deram conta.

"A cidade de Pripyat, na Ucrânia, 33 anos depois do acidente nuclear " - Foto: Eduardo de Abreu / foto retirada do Google.

A divisão do livro é feita para nos dar um panorama histórico e mostrar as motivações da autora e isso já cria uma ambientação do que encontraremos nos relatos; a divisão está feita da seguinte maneira: Nota histórica, Uma solitária voz humanaEntrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia nossa visão de mundo, Primeira parte: Terra dos mortos e Coro de soldados, Segunda parte: Coro do povo, Terceira parte: Coro de Crianças e Uma solitária voz humana, A título do epílogo e Apêndice- A batalha perdida.

Antes de Tchernóbil, havia 82 casos de doenças oncológicas para cada 100 mil habitantes. Os casos multiplicaram-se quase 74 vezes. 
 O primeiro relato é da esposa de um dos bombeiros que foi até o centro do incêndio da explosão sem NENHUMA proteção, isso por si só já nos causa alarme do quanto não sabiam com o que estavam lidando e já nos levanta o questionamento de: Quanto estamos preparados para lidar com um desastre deses hoje em dia? Será que aprendemos alguma coisa? 

Obviamente, se entrarmos no Google e procurarmos pelo acidente, existem milhares de resultados em poucos segundos, mas o que a autora faz nesse livro é justamente dar voz a aqueles que conseguiram sobreviver, aqueles que por dias viveram sob uma nuvem de morte, sem nenhum aviso de perigo, afinal o governo precisava conter o nível de alarme para que  houvesse quem enviar para conter os danos (se é que isso era possível).

Eu lembro que nos primeiros dias depois do acidente, os livros sobre radiação desapareceram da biblioteca, e os livros sobre Hiroshima e Nagasaki, e até os que tratavam de raios X. 
Durante a leitura me perguntei o quanto de visão política tinha nos relatos, afinal de conta estamos falando de uma importante divisão política histórica do mundo depois da Segunda Guerra Mundial, mas o que acabei percebendo é que as memórias não evocava desconfiança ou revolta porque a política estava intrincada na visão de mundo das pessoas, as decisões políticas só podem ser debatidas com a nossa visão de mundo de hoje.

Em escalas, o vazamento após a explosão no reator, foi dez vez mais potente que a bomba nuclear detonada em Hiroshima; até hoje o material não está contido, as paredes do sarcófago (espécie de caixa de concreto que visa conter a radiação) não está estável e precisou de reforços, uma tragédia que começou em 1986 e ainda não se pode ser considerada passado.

[...] Chegaram os primeiros jornalistas estrangeiros. A primeira equipe de filmagem. Vestiam macacões de matéria plástica, capacetes, galochas e luvas de borracha, e até a câmera tinha uma cobertura especial. Uma das nossas moças os acompanhava como tradutora. Ela usava um vestidinho de verão e sapatilhas.

No capítulo que a autora fala da versão dela de Tchernóbil fica muito claro que apesar de nós, ocidentais, não termos sido diretamente afetados e/ou aniquilados com aquele vazamento, somos todos parte desse evento até mesmo quem nasceu muito anos depois, como diz a própria Svetlana "Tchernóbil é antes de tudo uma catástrofe do tempo."

A ideia inicial para a resenha desse livro era ler e assistir a série recém produzida, mas os relatos me deixaram muito mais impactada do que eu esperava e decidi esperar um tempo entre a leitura e a série e mesmo assim, recomendo muitíssimo a leitura desse livro assim como todos que narram histórias daqueles que sobreviveram as grandes tragédias ou fatos históricos; é só relembrando e aprendendo sobre o passado que estaremos atentos para que não se repitam os mesmos erros. 

As meninas da minha turma, quando souberam que eu tinha câncer no sangue, ficaram com medo de sentar do meu lado. De me tocar. Mas eu olhava as minhas mãos, as minhas pastas e os cadernos. Não havia nada de diferente. Por que tinham medo de mim? Os médicos disseram que adoeci porque meu pai trabalhava em Tchernóbil. Mas eu nasci depois disso. E eu amo o papai.

Antes de terminarmos por aqui, além de recomendar a leitura, gostaria de comentar alguns dados que fui procurar sobre energia nuclear, apesar do Brasil por questões geográficas e ecológicas produzir nossa energia a partir de fonte  solar, eólica e hidráulica, países como a França tem mais de 70% da sua energia produzida na base da energia nuclear, mas Karina a França está lá na Europa; realmente, o caso Francês está longe do nosso território, porém, a Bolívia por exemplo, nossa vizinha de fronteira estuda implementar uma usina nuclear pois usinas desses tipo podem ajudar países emergentes no desenvolvimento uma vez que a fonte de energia independe de fontes naturais.

O que esses dados tem haver com a história relatada no livro da Svetlana? Simples, a lição mais poderosa que ficou comigo é que radiação não respeita fronteiras!

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7 comentários :

  1. Karina!
    Lendo sua resenha e observando a análise da autora sobre os fatos, pude relembrar o acontecimento nos anos 80 e o quanto o mundo ficou estarrecido e preocupado com a explosão e claro, com todas as consequências decorrentes dele. Foi um choque!
    E concordo, energia nuclear não vê fronteiras, tomara que não seja colocada na Bolívia, seríamos atingidos quase que diretamente.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Rud eu li e só pensava na Bolivia.... quero mto ver a serie agora !

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  2. Deve ser mesmo uma leitura difícil e que mexe muito com as nossas emoções, só de imaginar o que as pessoas passaram nesse momento quando isso aconteceu, da um desespero. Não sabia desse livro e nem que o material ainda não esta contido que horror, mesmo depois de tanto tempo. Muito triste algo assim acontecer, espero que não se repita, embora do jeito que as coisas andam vai saber.

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    1. Foi impossível não dar um google nas imagens o que torna tdo ainda mais real , to me preparando pra assistir a serie !

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  3. Geralmente não sou de ler livros de não ficção, mas meu lado curioso fala mais alto rsrsrs
    Gostei do livro trazer relatos dos sobreviventes do acidente e também daqueles que são filhos dessas pessoas, assim dá para se ter um noção do tamanho do desastre, que vai muito além do espaço geográfico que foi afetado.

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  4. Olá! ♡ Nossa, esse parece ser um livro bem intenso, que aflora nossas emoções, que nos impacta ao nos deparamos com tanto sofrimento.
    Ainda não conhecia esse livro, mas depois de ler sua resenha, quero conhecer mais sobre essa história.
    Obrigada pela indicação!

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  5. Oiii ❤ Realmente, parece um livro bem pesado mesmo de ser lido, já que o que aconteceu em Chernobyl foi muito triste e que muitas pessoas foram afetadas por esse desastre.
    É interessante que o livro tenha base em relatos sobre coisas que aconteceram quando reator explodiu, acho que assim o leitor consegue ter uma visão bem ampla do desastre.
    Adoraria fazer essa leitura.
    Beijos ❤

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