26 novembro 2019

[Resenha] Tempo de Graça, Tempo de Dor - Frances de Pontes Peebles

Nascida na miséria e abandonada pela mãe, Das Dores tem uma infância difícil trabalhando como ajudante de cozinha num grande engenho de açúcar em Pernambuco, nos anos 1930. Um dia, a chegada de uma menina muda tudo. Graça, a filha mimada do novo senhor da fazenda, é esperta, bem-alimentada, bonita – e encantadoramente malcomportada.
Vindas de mundos tão diferentes, elas constroem uma amizade que nasce das travessuras em dupla, floresce em seu amor pela música e marca para sempre sua vida e seu destino.
Quando não conseguem suportar o que o futuro no engenho lhes reserva, elas fogem para o Rio de Janeiro em busca de uma carreira como divas do rádio. Mas só uma está destinada a se tornar uma estrela. À outra restam os bastidores, longe das atenções e do reconhecimento do público.
Começando no Nordeste e passando pelas ruas da Lapa, no Rio de Janeiro, e pela Los Angeles da Era de Ouro hollywoodiana, Tempo de Graça, Tempo de Dor é o comovente retrato de uma amizade inabalável, marcada pelo orgulho, pela rivalidade e pelo ressentimento. Escrito em forma de memórias, conta as alegrias e o lado sombrio do relacionamento de duas mulheres que encontram na música, e às vezes uma na outra, o sentido da própria existência.

  Livro:  Tempo de Graça, Tempo de Dor||  Autor: Frances de Pontes Peebles
Ano: 2019 ||  Editora: Arqueiro|| Gênero:Drama / Ficção / Literatura Brasileira
Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Luci

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Começo essa resenha imediatamente após a leitura do livro, ainda em uma mistura confusa de sentimentos que ele me deixou. Ainda assim, farei uma tentativa de uma resenha.

O livro é narrado sob o ponto de vista de Das Dores, e seu nome de batismo é como um estigma de dor que ela carregará desde o seu nascimento: nascida na miséria, na década de 1920, seu destino era ser jogada entre os canaviais, para morrer sob o sol escaldante do nordeste ou vítima de algum animal. A decisão da cozinheira da casa grande, de criá-la, a tirou desse fim. Mas Dor não foi adotada para satisfazer impulsos maternos, mas sim, para ser moldada à vida de servidão, seria apenas mais uma sem identidade que iria servir aos ricos patrões. 

Quando teve alergia ao leite de vaca e outros alimentos, para que sobrevivesse foi colocada para mamar em um animal, uma jega, e isso reforçou ainda mais a sua condição: ninguém a chamava pelo nome, era chamada por Jega, o que, de certa forma, lhe tirava ainda mais a humanidade e a fazia invisível enquanto pessoa. 

Quando tinha em torno de 09 anos, uma nova família veio morar na casa grande e tomar conta do engenho. Foi quando Dor conheceu Graça, a mimada patroinha, filha dos novos patrões. Foi também quando ela foi vista, pela primeira vez, por alguém. Vista, no sentido de não ser apenas a Jega, um ser que existia apenas para servir. E cumprindo as vontades de Graça, Dor foi designada a ser sua companhia, alguém com quem ela pudesse brincar, se aventurar pelo engenho e ter o privilégio que nenhuma criança na condição dela teria: aprender a ler e escrever. Entre as duas forjou-se uma inusitada amizade, onde ora Dores se sentia alguém, ora era devolvida à sua condição subserviente. E sempre servindo à vontade de Graça.

(...) e eu sempre fui Jega, até ela me chamar de Das Dores.”

A insistência da mãe de Graça em fazê-la ter uma educação culta leva as meninas a conhecerem o que seria decisivo para mudar a vida das duas: a música. Desde o início, Dor “sentiu” a música, era algo que lhe despertava os mais profundos sentimentos. Em Graça, a admiração também surgiu, mas ela ansiava mais pela atenção que a música poderia lhe dar, ao cantar canções e ser admirada. E foi a música que as inspirou a ter a ambição de sair daquele lugar e tentar a sorte cantando as canções que amavam.

“Para além daquela cozinha e daqueles canaviais existia um mundo de possibilidades que eu não conseguia imaginar, mas queria. Fiquei pasma com a avidez daquele incêndio no canavial. Era lindo em sua necessidade constante, em sua fome sem limites. Olhei-o queimar, o calor golpeando minha pele, e soube que éramos parecidos, aquele fogo e eu. Queríamos mais do que nos davam, e sempre seria assim.”

E assim, na primeira oportunidade, as duas embarcam em uma aventura que as levam ao Rio de Janeiro, para a vida boemia da Lapa da década de 1930, até Hollywood. Dor presa aos bastidores, compondo os versos que lhe falam a alma, e Graça os cantando e encantando nos palcos. E assim como as melodias e as cadências musicais, a amizade das duas vão num crescendo e diminuendo, em um ritmo cada vez mais intenso.



Como falei no início, terminei esse romance com uma mistura de sentimentos, pois foi uma leitura muito intensa. E uma grande parte disso se deve à forma como a autora construiu a narrativa, ouso dizer que sua escrita chega até a ser poética. Como o livro também fala de música, e ela coloca em cada início de capítulo uma composição de sua personagem, a narrativa parece uma extensão desses versos, pela quantidade de sentimentos que lemos em cada linha, ao mostrar a evolução da personagem, seus conflitos de sentimentos e tudo o mais. 

Outro ponto que devo destacar na narrativa, é que Frances de Pontes Peebles a transforma em algo tão vívido, que chega a ser impossível não visualizar o cenário descrito. Particularmente, como cresci em meio a esse cenário de canaviais, do fogo que o consome, dos trabalhadores que vivem da cana, era como ler tendo as imagens projetadas à minha frente. Até o cheiro que ela descreve, da cana sendo processada, resgatou memórias há muito tempo esquecidas.

Mas o livro gira, principalmente, em torno da amizade. Como ela pode transformar uma pessoa e, ao mesmo tempo, deixá-la dependente. Como é difícil você receber finalmente a atenção de alguém, amá-la e viver na dúvida sobre até que ponto isso é recíproco.

Na narrativa de Das Dores, que intercala o presente com o passado, vemos isso com uma clareza bem nítida. E esse foi o principal ponto que me impactou na leitura e muitas vezes fiquei me questionando, enquanto lia: Quem era Dor sem a Graça? Quem era a Graça sem a Dor? Pareceu-me que ambas se completavam, que nenhuma chegaria tão longe sem a outra. Porém, o estigma de Dor continuava: ela sempre ficava escondida, nas sombras, como se não fosse digna de receber nada, ao mesmo tempo que era tão necessária. Quando se chega ao ponto que pensava que ela teria um pouco de protagonismo no meio em que ambas viviam, ela era ofuscada pela necessidade de atenção de Graça. E dá para sentir o quanto dos sonhos de Dor são sufocados para realizar os sonhos de sua amiga.

O livro nos faz refletir até que ponto nós somos moldados pelas pessoas que escolhemos para apoiar e estar ao nosso lado. Até que ponto é necessário deixar o outro ir, deixar de se anular e o momento em que devemos tentar seguir em frente, sem estar sob a sombra do outro. Há amores que inspiram nossos sonhos, mas também há aqueles que nos fazem parar de sonhar ou nos faz ter medo de seguir sozinhos.

Graça e Dor. Dor e Graça. Valorizaríamos as graças da vida, sem ter passado por dores? Nessa história, somos transportados a refletir sobre os valores e atitudes que absorvemos através da amizade e até que ponto ela pode nos levar.

É uma leitura que recomendo muito.

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5 comentários :

  1. Lucilene!
    Acredito que o livro seja impactante, primeiro pela época em que foi ambientada, e já digo que adoro quando os lugares são bem descritos, e depois por tudo que Dor passou, até realmente se sentir amada e ter uma amizade que foi boa, porém ao mesmo tempo a deixava no ostracismo..
    cheirinhos
    Rudy

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  2. É triste se sentir invisível, a vida da protagonista deve mexer muito com as nossas emoções, não ser enxergada domo um ser humano, mas ainda bem que ela conheceu alguém que a enxergava e era sua amiga, apesar de ainda continuar em segundo plano, a leitura nos deixa pensando sobre os acontecimentos da vida e nossas amizades, algumas não valem nada, mas outras fazem a diferença são muito importantes pra gente.

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  3. Achei a história bem impactante, tanto pela amizade,inusitada por sinal, que as duas construíram, pela incapacidade da Graça de se deixar ofuscar pelos outros e pelo cenário descrito no livro.
    O livro deixa um ponto muito importante de reflexão; até que ponto podemos suportar e levar as coisas em nome da amizade?

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  4. Olá! ♡ É a primeira vez que leio uma resenha desse livro e sinto que preciso fazer sua leitura.
    O livro de fato parece muito intenso, cheio de questionamentos e reflexões muito importantes. Achei interessante que o livro nos faz refletir bastante a respeito da amizade e dos rumos que a mesma pode nos fazer tomar.
    Parabéns pela resenha, ficou ótima!
    Obrigada pela indicação, espero poder fazer a leitura deste livro em breve, estou curiosa para conhecer mais sobre essa história.
    Beijos!

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  5. Oiii ❤ Nossa, que premissa!
    Gostei que esse é um livro sobre uma amizade que surge na infância e que acaba levando as protagonistas a seguirem seus sonhos juntas.
    Achei tão injusto que Da Dor escreva as canções e que Graça seja quem as canta, que ela fique nos bastidores enquanto a amiga fica no palco.
    Estou muito curiosa sobre esse livro e adoraria fazer sua leitura.
    Beijos ❤

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