27 novembro 2019

[Resenha] A Devolvida - Donatella Di Pietrantonio

Aos 13 anos, uma garota é levada do lar abastado onde vive para uma casa estranha e com pessoas que dizem ser seus pais e irmãos.
Na pequena cidade italiana todos conhecem sua história: ela é a criança que os pais naturais, pobres e de família numerosa, “deram” a um parente que não podia ter filhos e que este a devolveu quando a menina frequentava o ensino médio, não por maldade, mas porque a vida pode ser mais complexa do que imaginamos e nos força a fazer escolhas dolorosas.
Ela era a devolvida. Sentia-se como uma estrangeira na nova casa e, desde então, a palavra “mãe” travara em sua garganta. Privada até de um adeus por aqueles que sempre acreditou serem seus pais, ela se vê incrédula ao enfrentar o sofrimento de ser abandonada novamente de forma repentina.
“Minha vida anterior me distinguiu, me isolou na nova família. Quando voltei, falava outra língua e não sabia mais a quem pertencia”.
Forçada a crescer para reintegrar-se ao seu núcleo original, ela vive uma sensação de subtração, de gente esvaziada de significado, e nos ensina em meio à dor como encontrar sentido quando tudo parece desmoronar.

  Livro: A Devolvida ||  Série: Livro Único|| Autor: Donatella Di Pietrantonio
  Editora: Faro Editorial  ||Classificação: 4 estrelas || Resenhista: Luci
 Ano: 2019 || Gênero: Drama / Ficção / Literatura Estrangeira

Aos 13 anos, no ano de 1975, ela foi jogada em um mundo a qual não pertencia. De repente, sem nenhuma explicação plausível, ela foi tirada de um lar onde vivia com pais amorosos e foi levada à sua verdadeira família, que a via como mais uma boca para sustentar. Sem laços amorosos, sem amigos, nada e ninguém a quem ela pudesse buscar conforto.

“Eu fiquei órfã de duas mães vivas. Uma me entregou quando eu ainda tinha seu leite na língua; a outra me devolveu quando eu tinha treze anos. Eu era filha de separações, de laços de parentesco falsos ou omitidos, de distância. Não sabia mais de quem eu provinha."

Tentando se adaptar a essa nova realidade, ela tenta sobreviver da melhor forma possível a uma casa pobre, convivendo com um pai que pouco se importa com os filhos, a não ser para castiga-los de forma rígida ou instigá-los para o trabalho; a uma mãe que a olha com indiferença e se aborrece pela sua pouca habilidade com trabalhos domésticos, e com irmãos que a vê como a verdadeira estranha que ela é e insistem em não facilitar sua adaptação em sua nova vida. 

Aos poucos, ela cria laços com o bebê Giuseppe, sua irmã mais nova, Adriana, e Vicenzo, o único irmão que não a olha com indiferença e parece ser o único que quer mudar a sua realidade. E assim, ela vai aprendendo a viver uma nova vida, criando vínculos que a ela eram impossíveis de serem criados.

Nesse processo todo, ela procura criar sua própria identidade, não ser apenas “A Devolvida”, como passou a ser chamada na cidade onde agora vive. Mas é um processo conflituoso, longo, e nele ela vai aprender a criar novos conceitos de família, amor e amizade, em um ambiente cujos valores diferem, e muito, com os quais ela foi criada.


A Devolvida é uma narrativa em primeira pessoa que conta a história de uma garota que, ao longo das páginas, vai contando a sua história, seus sentimentos e impressões sobre a sua nova vida. 

O interessante é que, em nenhum momento, seu nome é citado. Ela não se apresenta ao leitor à medida que narra seu passado, mas esse detalhe não inibe que se crie um laço com ela, pois passamos a conhecer o seu íntimo, seus medos, inseguranças e aflições. Simplesmente não se consegue ficar indiferente. Acompanhamos avidamente sua história, o seu longo e difícil processo de adaptação, que deixará marcas em sua personalidade, entrevemos isso quando a narrativa sai do passado e ela deixa entrever um pouco do seu presente.

Em certos momentos, o leitor pode se sentir até invasivo, acompanhando tão intimamente os pensamentos dessa jovem, a forma como ela cria novos sentimentos e vai se moldando, ao longo do tempo que passa com sua família biológica. Como ela passa a compreender que seus comportamentos, sentimentos e atitudes são apenas frutos de uma vida difícil, para não dizer até miserável, cujas perspectivas os fazem dar pouco valor a coisas tão essenciais que ela valorizava, como a educação, por exemplo, tende em mente sempre a sobrevivência, sinônimo de trabalho e comida na mesa.

É uma leitura curta, mas intensa. Li em uma tarde, perdi-me completamente, por isso não tenho receio de indicar esse livro, pela sua narrativa intensa e envolvente.

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5 comentários :

  1. Lucilene!
    Gosto de leituras intensas e que mexem com a gente.
    Se o livro prende a atenção, já é bom.
    Gosto de dramas, nem tanto de melancolia, mas vamos ler, né?
    Esquisito esse lance de não ter nome.
    Agora por que os pais adotivos devolvem ela? Fica esclarecido?
    Dramas familiares dão sempre uma boa leitura.
    Pois é, um verdadeiro choque de realidade.
    Gostei.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Não deve ser uma leitura fácil, devido a tudo que a protagonista passa, mexe com nossos sentimentos e da para ficar imaginando como tem algumas pessoas que não tem muita sorte digamos assim na vida, ser levada de um lar para outro deve ser muito sofrido e pensar que tem pessoas que passam por isso na vida real é lamentável. Intrigante isso do nome dela não ser citado.

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  3. Uma história realmente muito intensa. Lendo a resenha só fiquei imaginando o que se passava na cabaça da personagem, ser abandonada não uma, mas duas vezes, e ser considerada pelos pais nada mais que apenas uma boca para dar de comer.
    Além disso, acho que o que torna mais intensa a história é o fato da narrativa não revelar o nome da personagem.

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  4. Olá! ♡ Nossa, parece de fato um livro bem intenso, do tipo que permanece vivo em nossas mentes mesmo muito tempo depois de termos o terminado.
    Não consigo nem imaginar no quando essa garota sofreu ao ser tirada de uma família maravilhosa e levada a sua família biológica, para um lugar totalmente oposto do lar amoroso em que vivia. Ninguém merece se sentir abandonado, muito menos dessa maneira.
    Espero um dia ter a oportunidade de fazer essa leitura.
    Beijos! ♡

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  5. Oiii ❤ Nossa, que triste essa situação enfrentada por essa garota, que ela tenha sido abandonada pelos pais adotivos a quem ela amava e sem nenhuma despedida ainda por cima. Imagino o choque que deve ter sido para ela um dia estar com quem ama e ter uma boa vida e no outro não ter mais nada disso.
    Parece uma história que nos faz refletir e pensar em como seria se estivéssemos na pele da personagem.
    Adoraria fazer essa leitura.
    Beijos ❤

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