03 junho 2019

[Resenha] Se a rua Beale falasse - James Baldwin

Lançado em 1974, o quinto romance de James Baldwin narra os esforços de Tish para provar a inocência de Fonny, seu noivo, preso injustamente. Livro que inspirou o filme homônimo dirigido por Barry Jenkins, vencedor do Oscar por Moonlight. Tish tem dezenove anos quando descobre que está grávida de Fonny, de 22. A sólida história de amor dos dois é interrompida bruscamente quando o rapaz é acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, embora não haja nenhuma prova que o incrimine. Convicta da honestidade do noivo, Tish mobiliza sua família e advogados na tentativa de libertá-lo da prisão. Se a rua Beale falasse é um romance comovente que tem o Harlem da década de 1970 como pano de fundo. Ao revelar as incertezas do futuro, a trama joga luz sobre o desespero, a tristeza e a esperança trazidos a reboque de uma sentença anunciada em um país onde a discriminação racial está profundamente arraigada no cotidiano. Esta edição tem tradução de Jorio Dauster e inclui posfácio de Márcio Macedo.


Livro: Se a rua Beale falasse ||  Série: Livro Único|| Autor: James Baldwin
  Editora: Companhia das letras  ||Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Sheila Santos
 Ano: 2019 || Gênero: Drama

Se a rua Beale falasse, é um livro escrito em 1974 que ainda hoje é atual. Se você alguma vez já assistiu o seriado, Todo mundo odeia o Chris (Everybody  hate Chris), saiba que a ambientação do lugar do seriado é a mesma do livro, na mesma época, aonde existiam em Nova York bairros de negros e bairros de brancos e os negros eram tratados como cidadãos de segunda classe.

As leis eram feitas para brancos, para privilegiar brancos, negros viviam em segundo plano e nesse cenário contado desde a infância dos protagonistas Tish e Fonny, colegas de escola é possível perceber a diferenciação de mundos.

Cansado da pobreza e enamorado de Tish, Fonny sonha em trabalhar e conquistar um espaço como escultor em um bairro branco, ousando ir contra o sistema não escrito da época, que os categoriza em bairros. Em uma das vezes que circula pelo bairro com Tish, acaba entrando em desagrado com um policial, após um rapaz branco assediar Tish; Fonny não sabendo como lidar com a  situação, bate no rapaz e é retirado dali direto para a delegacia, ele é solto, mas arruma um inimigo, já que o policial local deixa subtendido que haverá retaliação.

Fonny segue com a sua vida e com as descobertas amorosas com Tish, o autor é pungente ao contar a primeira vez que eles se envolvem sexualmente e a narração é crua e não sentimental ao mesmo tempo que transborda sentimentos reais de ambos.
Depois dessa noite, Fonny leva Tish em casa e a pede em casamento para seu pai. As famílias de ambos são retratos da sociedade daquela época, a família de Tish não vê porque rezar a Deus e segue sua vida pensando em economias com muito trabalho duro e sobrevivência, e a família de Fonny tem uma mãe e duas irmãs muito beatas e um pai alfaiate que é o companheiro maior na vivência de Fonny durante seu crescimento. A mãe de Fonny não aprova seu relacionamento com Tish e é extremamente cruel com a menina no decorrer do livro e então, aparece a força da família de Tish e sua união, sua irmã colocando as garras de fora,  a defende com unhas e dentes e segue sempre a seu lado.

Seguindo com sua vida, Fonny em um dia acaba sendo culpado de um estrupo por uma porto-riquenha e termina preso. Ele não é culpado pelo crime, mas provar isso em um sistema corrupto no qual o negro não tem vez e acaba pagando por muitas coisas que não fez, se mostra um trabalho árduo, que envolverá a família de Tish e o máximo  de pessoas que eles conseguem unir.

No meio disto tudo com Fonny preso, Tish se descobre grávida. Os avôs recebem a notícia com alegria a mãe dela e a irmã com apoio e a mãe de Fonny e suas irmãs com imenso desagrado, a jovem porém não esmorece, trabalha e se concentra ao máximo em tirar o noivo da cadeia.



A história se passa nos anos 70 e é narrado pela Tish, o que trás uma sensibilidade na narração pela inocência da personagem, mas sem deixar de focar em assuntos tão importantes como racismo, hipersexualização do corpo negro, e muitos outros assuntos que são tão atuais hoje. 

Uma outra questão bordada pelo autor é o preconceito dentro da própria comunidade negra. Temos como exemplo as irmãs de Fonny, que se sentem a cima de todos os outros por terem a pele mais clara e elas tentam usar isso como uma vantagem e não deixam de tratar maus todos por se acharem mais brancas. 

Durante o livro, é possível ver a segregação que já não deveria existir na época, e as diversas dificuldades que enfrentam no dia a dia, contra um sistema que se fecha para eles a cada instante. A escrita do autor é crua e ao mesmo tempo mesclada com uma visão terna que a torna única, como uma ferida na qual se assopra, essencial para reconhecimento de que eu, branca, vivo em um mundo sim privilegiado, simplesmente pela cor da minha pele, levou-me a longas reflexões em parágrafos intensos e reais, permeados de sentimentos muito profundos.

"O riso e o amor vem do mesmo lugar: mas pouca gente vai lá."

 O filme com o mesmo nome do livro foi lançado em 2018 e concorreu a 3 Oscar, Melhor atriz coadjuvante (Regina King,  ganhou), Melhor roteiro adaptado e Melhor trilha sonora original.


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4 comentários :

  1. Não conhecia o livro e nem o filme, fiquei curiosa para assistir vou dar uma procurada. É muito triste essa situação dos negros, livros e filmes assim mexem muito comigo, fico me imaginando vivendo uma situação assim, é revoltante. Na realidade também tem pessoas negras que tem preconceito com a própria cor, estranho e triste isso.

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  2. Quero muito poder ler esse livro. Com certeza é uma história muito triste e difícil de engolir. Mas, infelizmente, é algo muito atual. O racismo anda pelas ruas em qualquer lugar do mundo, infelizmente. Também quero assistir o filme, espero que tenha saído de acordo com o livro.

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  3. Oiii ❤ Nunca ouvi falar desse livro, mas agora que sei de sua existência e do que se trata, quero muito ❤ Tô muito animada em saber que tem o filme também.
    Espero que Tish consiga provar a inocência de Fonny, me incomoda muito pessoas serem presas sendo que são inocentes, é cruel demais sujeitas alguém a isso.
    Meu coração está apertado por Trish, ela tem apenas 19 anos, seu noivo está preso e ela está grávida.
    Gosto quando filmes, livros e séries tratam temas como racismo, apesar de serem cenas difíceis de se ver/ler, são muito importantes pra conscientização.
    Espero que tudo fique bem no final e que Trish, Fonny e o bebê possam viver juntos e felizes.

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  4. Olá! Ainda não havia ouvido falar sobre esse livro, mas depois de ler a sua resenha me vi intrigada pela trama. Achei interessante e importante o escritor tratar sobre o racismo, já que ele infelizmente é tão presente nos dias atuais. Esse é o tipo de livro que nos faz refletir, que nos marca e nos revolta ao ver as dificuldades que os personagens têm que enfrentar. Com certeza irei pesquisar mais sobre o livro e o filme e espero poder conferir ambos. Muito obrigada pela indicação! Beijos!

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