19 abril 2019

[Resenha] A mulher com olhos de fogo - Nawal El Saadawi

"Um dos livros mais francos e radicais sobre a vida feminina, de todas as origens, em todas as partes do mundo.” THE GUARDIAN Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. “Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você”, começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir... até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher. A AUTORA: NAWAL EL SAADAWI, 87, é uma escritora, ativista, médica e psiquiatra feminista egípcia. Saadawi foi presa pelo presidente Anwar al-Sadat em 1981 por supostos “crimes contra o Estado”. Ela escreveu muitos livros sobre as mulheres no Islã, e se dedica, em especial, à luta contra a prática da mutilação genital feminina no Oriente Médio. Nawal é tratada como “a Simone de Beauvoir do mundo árabe”. Seus livros já foram traduzidos para mais de 28 idiomas e são adotados em universidades do mundo inteiro. Seus discursos atualmente se concentram na crítica à tentativa de normalizar o que ela considera a opressão aos costumes das mulheres na África e Oriente Médio. Depois de quatro décadas da revolução islâmica, muitos já consideram normais as restrições aplicadas às mulheres, incluindo as próprias mulheres. “A Simone de Beauvoir do mundo árabe”. REUTERS
 Livro: A mulher com olhos de fogo|| Autor:  Nawal El Saadawi
  Editora: Faro Editorial  ||Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Luci
 Ano: 2019 || Gênero: Drama, Feminismo






Nos anos 1970, Nawal El Saadawi fazia um trabalho em uma prisão feminina no Egito, quando uma prisioneira em particular lhe chamou a atenção. Era Firdaus, uma mulher que foi condenada à morte pelo crime de assassinato, e sua sentença se cumpriria em algumas semanas. 

Mas o que lhe chamou a atenção em Firdaus não foi a sentença; mas sim a mulher em si, que não se comunicava com ninguém, não apelava de sua sentença, vivia apenas em serena altivez entre as demais detentas. Isso despertou sua curiosidade para descobrir sua história, de como chegou até ali e por que sua situação não desperta nenhum desespero. 

Durante semanas, Nawal tenta conversar com Firdaus, mas é em vão. Ela vê a data da execução se aproximar sem, no entanto, conseguir que ela lhe falasse, revelasse sua história. No auge da frustração, é surpreendida quando, às vésperas de sua morte, Firdaus decide conceder uma entrevista a ela. E a seguir, temos uma narração surpreendente. 

“Deixe-me falar. Não tenho tempo para ouvir você. Amanhã de manhã eu já não estarei mais neste mundo.” 

Nascida em uma sociedade altamente machista, Firdaus, desde pequena, inconscientemente já percebia que, por ser mulher, a ela não seria dado muitos privilégios, principalmente por ser de uma família extremamente pobre, que durante a escassez de alimentos, a comida era reservada ao chefe da família. Incontáveis vezes ficou sem comer algo, assim como sua mãe, para que o alimento fosse servido ao chefe da casa. Já nessa narrativa, de suas nebulosas lembranças infantis, o leitor percebe um cenário fortemente patriarcalista, com nulos espaços femininos. 

Quando os pais morrem, ela é levada para ser criada por um tio, e passa a viver em um mundo completamente contrário ao que ela conheceu até o momento. Seu tio a matricula em uma escola, e quando casa com uma mulher de família com certo status social, a envia para um colégio feminino, onde fica interna até concluir o segundo grau. 

É no colégio que ela cultiva o sonho de usar o certificado de conclusão para trabalhar, ser independente, mas seus planos são frustrados quando a casam com um homem muito mais velho que ela, e de uma mesquinhez extrema. Dada em casamento como um objeto, para aliviar as despesas na casa do tio, é tratada como tal: sofre abusos físicos e psicológicos do marido, até que num ato de desespero, foge, apenas para ser explorada por praticamente todas as pessoas que encontra em seu caminho. Ela percorre um caminho duro, até que percebe algo: é a dona do seu corpo. Ela quem deve controlá-lo. Não homens ou mulheres que querem explorar sua beleza. Ela agora tem o poder de dizer “não” e ser atendida. De escolher a quem dizer sim. 

Firdaus decide ser independente usando seu corpo, que tantas vezes foi explorado para o prazer dos outros; nisso, ela encontra a liberdade que nunca conheceu, assim como o poder de decidir ela mesma os caminhos que deve seguir em sua vida. 

Quando um cafetão decide controlá-la, anos de exploração explodem de forma violenta, fazendo-a cometer assassinato. Mas nesse ato, ela encontra um sentido: 

“Quando matei, fiz isso com a verdade, não com uma faca. Por isso estão com medo e não veem a hora de me executar. Eles não temem a minha faca. O que os amedronta é a minha verdade. Essa verdade terrível me confere grande força. Ela me afasta do medo da morte, da vida, da fome, da nudez, da destruição. Graças a essa verdade terrível eu não temo a brutalidade dos governantes e dos policiais.” 

Antes de tudo, quero destacar que o relato de Firdaus, escrito no livro, não é uma biografia. Ele se constitui em um relato fiel das relações de poder existentes em determinadas sociedades, em se tratando do papel da mulher nelas. Apesar de seu relato datar os acontecimentos entre as décadas de 1960 e 1970, ele continua atual, e isso é extremamente inquietante. 

Nas entrelinhas, podemos perceber o quanto a sua condição feminina determinou sua vida, sua história, em uma sociedade extremamente machista e hierárquica. Firdaus constrói, através do seu relato, muito bem escrito por Nawal El Saadawi, um retrato fiel da condição feminina em países que ainda apontam a mulher como parte supérflua da sociedade, essencial apenas para fins de procriação e troca, em uma exploração que lhe fere a condição humana. 

A verdade encontrada por Firdaus é única: ao encontrar a liberdade, uma mulher impõe medo, e essa liberdade, aos olhos de muitos, fere mais que uma faca afiada, e até mesmo que a violência do ato de matar, por isso a necessidade de calar uma voz feminina que se descobriu dona de si mesma e não aceita mais que sua liberdade, o poder de dizer não, de decidir seu próprio destino sem interferências masculinas, seja arrancado dela. 

A história de Firdaus ainda nos remete a uma triste verdade, a de que a igualdade está longe de ser conquistada, e o grito de liberdade feminina ainda incomoda, a ponto de tentarem calar, mas felizmente esse grito, por mais tentativas de sufocá-lo, vem como uma turba, atraindo cada vez mais pessoas que acalentam o desejo de ser livre de imposições sociais derivados de preconceitos de gêneros que só subjugam. 

Existem muitas Firdaus mundo afora, infelizmente. Assim como há uma guerra muito grande de preconceitos a ser vencida. 

Destaco a fluidez da escrita de Nawal El Saadawi, que teve o poder de me prender à história. A editora está de parabéns pela arte da capa e a diagramação do livro. 

Livro que vale muito a pena ser lido. 

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4 comentários :

  1. Lud!
    Que capa misteriosa, gostei muito.
    Acredito que nunca li um livro árabe, já por isso é interessante, mas ainda mais pelo fato de ver que a protagonista tenta ter direito a seu próprio corpo em um país onde as mulheres não tem vez nem voz. Não sei bem se foi a melhor forma de escolha, não a critico porque afinal, nós do ocidente não vivemos essa 'mutilação' que as mulheres árabes sofrem, porém acredito que foi a melhor forma para ela...
    Boa Páscoa!
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Livro interessante, é muito triste saber que ainda existem mulheres sofrendo só por serem mulheres, tem lugares que somos tratadas como um objeto e nada mais. Gostei que ela teve iniciativa de tomar as rédeas da sua vida, mas esse caminho que ela seguiu não é dos melhores, mas fica difícil saber a situação dela, precisa-se ler o livro e acompanhar sua jornada.

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  3. Olá!
    Eu não tinha lido livros assim, fiquei um tanto interessada por ele. A historia é comovente e ao mesmo tempo real, porque é difícil imaginar que ainda existe mulheres sofrendo dessa maneira por ser mulher. Espero poder ler esse livro!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  4. Lendo toda a descrição do enredo, meu coração foi pesando. É inacreditável que em pleno século XXI ainda exista, em alguns lugares, situações como essa em que as mulheres são tratadas como objetos que podem ser doadas e vendidas.
    Claro que quero muito poder ler esse livro, o quanto antes. Parabéns pela resenha.

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