12 abril 2019

[Resenha] Cinzas na Neve - Ruta Sepetys


Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história
Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda para sempre seus planos.
Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.
Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.
Cinzas na neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin.

Livro: Cinzas na neve  || Autor: Ruta Sepetys
Editora: Arqueiro  || Ano: 2019 ||  Gênero:  Drama, Romance, Guerra
 Classificação:  Ruta Sepetys ||  Classificação: 5 || Resenhista: Sheila Santos

O livro conta a história da opressão feita por Stalin na Lituânia, e isso já me entusiasmou bastante. Quando se trata da Segunda Guerra Mundial o mais comum é que se falem do holocausto judeu provocado por Hitler e poucas vezes se fala do massacre causado por Stalin em nações como a Lituânia, Estônia e Letônia.

Perseguidos pela União Soviética, pessoas que ajudavam contra o avanço de Stalin na conquista dos 3 países já mencionados, eram vistas como inimigas do estado e presas em campos de trabalho forçado, muito similar aos campos judeus, só que eram vistos como traidores.

A história se divide em cada passagem, a primeira se concentra na longa viagem de trem, a segunda enquanto trabalham nas fazendas comunitárias e a terceira em um Gulag na faixa do Circulo polar.

O livro conta a trajetória de uma família – a família Vilkas. O pai é um reitor da universidade em uma época que estudiosos eram vistos com muita desconfiança, pois poderiam se revoltar contra o governo. A mãe, Elena, era bem esclarecida politicamente para a época, principalmente sendo mulher. A filha mais velha, Lina, tem alma de artista e desenha muito bem, sendo precoce aos seus 14 anos para seus dons artísticos, e a família se completa com o filho caçula de nome Jonas.

Arrancados de sua vida às pressas pela polícia, separados em uma estação de trem e enfiados em apertados vagões para gado, eles são transportados para lugares longínquos e frios, para serem, na primeira tentativa, vendidos como escravos para fazendas. Quando não eram comprados por ninguém, foram realocados em campos de trabalho forçado. No governo de Stalin, que era socialista, defendia-se que o governo deveria gerir as plantações, e isso é bem retratado.

Devo destacar que no trem lhes é possível ver um padre da plataforma aplicando a extrema unção aos vagões, como se eles já estivessem à beira da morte. 

No caminho vemos a pureza da mãe de Lina, a empatia que a circunda é tão forte que nos estarrece, ela é a praticante máxima da frase: fazei o bem sem olhar a quem. E passa isso para a Lina e o filho, e a cada instante suas boas ações no trem, gerando amizade com outras famílias e tentando ao máximo se apoiarem, nos inspiram.

No vagão, Lina conhece Andrias, um rapaz de 17 anos, que está com sua a mãe. Eles passam o livro todo entre o flerte próprio da idade e as agruras da prisão imposta. Essa parte da história é muito terna, a relação de Lina e Andrias nos conquista mais um pouquinho a cada página.

Na colônia de trabalho forçado, eles devem trabalhar o dia inteiro por uma porção de comida parca e pouco nutritiva. Se adoecem e não trabalham, não comem, e são sempre intimidados para assinarem documentos dizendo que são traidores e que concordam em servir 25 anos de pena, trabalhando nos campos.

O livro tem sutilezas que descobrimos a cada página e nos mostra o pior e o melhor do ser humano. Uma história linda, de uma poesia incrível e muito bem fundamentada. A autora nos conta que visitou lugares e estudou para escrevê-lo.


É possível ver a compaixão em alguns guardas e a discordância de alguns deles em se prestarem ao papel de carrascos, enquanto outros se encaixam perfeitamente na maldade instituída por Stalin.

Durante toda a extração e prisão da família, Lina faz de tudo por pedaços de papéis e jeitos de desenhar, de canetas roubadas a pedaços de carvão do fogo, ela faz e faz desenhos que retratam o viver deles. A personagem sempre diz que desenha o que vê e nem sempre é bonito, assim os registros de tudo o que acontece com as pessoas fica nos desenhos de Lina.

Tocante, incrivelmente preciso em sentimentos, cru, profundo e terno, o livro é uma luz para os leitores, nos ensina, nos faz enxergar bênçãos e como o ser humano ainda precisa de evolução.

Com uma escrita fluida, com parágrafos não tão longos, com boas descrições de lugares e da época, personagens ativos que sabem o que estão vivendo, constitui uma leitura prazerosa, e apesar de o tema ser de guerra, é possível enxergar o panorama, sentir os sentimentos dos personagens e torcer por eles, e no final da história se sentir contente por ter feito a leitura.

O livro virou filme lançado nesse mesmo ano de 2019, e apesar de esquecer alguns personagens, ilustra as condições de vida nesse período desses prisioneiros políticos.




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6 comentários :

  1. Sheila!
    O que achei mais interessante é justamente a abordagem pelo lado das desmazelas de Stalin, realmente os livros da segunda guerra abordam o que Hitler e o nazismo fizeram, mas não esse outro ditador déspota.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Sim, o terrorismo d Hitler ofuscou perante a midia a crueldade de Stalin, mas se olharmos a historia de perto, ambos agiram da mesma forma em níveis de crueldade.

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  2. Eu li esse livro com o título de A Vida em Tons de Cinza. Amei a leitura. Gosto muito desses livros que trazem essas verdades da guerra. Claro que são tocantes e a leitura nem sempre é fácil, mas é muito bom para conhecermos.
    A escrita da autora é maravilhosa, porque ela detalha e nos faz viver aquela história.
    Não sabia que tinha o filme. Com certeza quero assistir. Será emocionante.

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    1. Isso mesmo Nil, reeditaram o titulo para casar com o filme que foi lançado recententemente!

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  3. Não conhecia essa história, só a dos Judeus, gosto desse estilo de leitura, onde se tem a luta pela sobrevivência e poder acompanhar o sofrimento dessas pessoas, assim podemos refletir sobre nossas ações e procurar melhorar sempre, ver o quanto reclamamos de barriga cheia, enquanto pessoas sofreram demais e mal tinham o que comer. É uma leitura difícil que deixa marcas em quem lê.

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    1. Sim, as marcas nesse caso me fizeram repensar conceitos e ter mais amor ao próximo, achei bem positiva a leitura!

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