26 março 2019

[RESENHA] Rumo ao Sul - Silas House

E se você descobrisse que viveu muito tempo sob perspectivas equivocadas?
E que foi cruel com uma das pessoas que mais amava no mundo?
Essa é a jornada...
Ao sul dos Estados Unidos, numa pequena cidade do Tennessee, o pastor Asher Sharp tem de encarar o seu próprio passado após uma das mais violentas enchentes que aquelas terras já enfrentaram.
Então um casal gay pede abrigo ao pastor após ajuda-lo no socorro a outras pessoas, mas perderam tudo na inundação. Asher se vê diante de um dilema, quer abrigar os dois homens mas encara a recusa de sua esposa. Um fato que vai trazer à tona histórias enterradas de sua própria vida, da rejeição ao seu irmão, que era também seu melhor amigo.
Algo que o faz questionar todos os valores daquela comunidade e tomar atitudes de ruptura, que desencadeiam uma série de outros eventos.
Decidido a encontrar o irmão de quem ele se afastou e nem sabe o paradeiro, desejando salvar o filho de um ambiente asfixiante, ele parte numa viagem rumo ao sul. Um percurso em que toda a sua história é passada à limpo, em meio a belas paisagens, novas amizades e descobrindo um mundo imenso, muito diferente do seu, algo que pôde ensiná-lo sobre as coisas mais profundas da vida.

 Livro: Rumo ao Sul ||  Série: Livro Único|| Autor: Silas House
  Editora: Faro Editorial  ||Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Luci
 Ano: 2019 || Gênero: LGBT / GLS.







Uma violenta enchente arrasa uma boa parte de uma pequena cidade do Tenessee, onde Asher Sharp é pastor. No entanto, a força violenta das águas não terá somente como resultado a destruição de plantações e casas, como ele irá descobrir; as águas turvas, incrivelmente, vão funcionar para ele como um clareador dos seus pensamentos e consciência.

Como pastor, é seu dever acolher a todos que precisam, no entanto, quando um casal gay que auxiliou no salvamento de pessoas se encontra sem abrigo, em meio à chuva e à inundação, o peso do “pecado” que eles carregam, por manterem um relacionamento homo afetivo, o faz entrar em um conflito que resulta na sua omissão quanto a abrigá-los, ou não, nesse momento. E sob a pressão da sua religiosa esposa Lydia, a resposta é não.

Queria dizer a ela que a fé sem ação é inútil, que Deus não houve esse tipo de prece.

Imediatamente, seus pensamentos se concentram no irmão, que não vê há mais de 10 anos, desde o momento em que Luke admitiu sua homossexualidade, e Asher, usando sua fé como base, decidiu o excluir da sua vida. Quando Luke decidiu partir, Asher nunca tomou a iniciativa de procurá-lo, pois tinha seus conceitos bíblicos bem arraigados dentro de si, sobre o que é certo e errado. Mas com esse último episódio, com o casal gay, sentimentos nascentes ganham mais vida, o inquietando.

A inquietação em sua mente cresce à medida que o casal homo afetivo tenta se inserir na comunidade, participando do culto, atraindo ainda mais o preconceito sobre eles, principalmente por insistirem em frequentar um espaço religioso. E os “fiéis”, ao verem como as atitudes de Asher apenas incentivam a participação deles nos cultos, começam a exigir que o pastor acabe com esse tipo de coisa. Afinal, como podem dois pecadores quererem ficar em meio a tantos homens e mulheres “santos”? 

 (...) O medo de alguém que é diferente nos torna terrivelmente mesquinhos. (...)

A recusa de Asher em expulsá-los tem uma consequência: ele mesmo é expulso da função de pastor, perdendo o prestígio da sua pequena comunidade, a qual ele tanto auxiliou. Ao tentar fazê-los ver a verdade, o agora ex-pastor entra em conflito com vários membros da comunidade, inclusive com sua esposa, a quem pede o divórcio, e no final de tudo, ele acaba por perder a guarda do filho, Justin, sendo julgado totalmente incapaz e instável emocionalmente, apenas por defender uma causa que acredita: o amor ao próximo, independente da sua opção sexual.

Vocês podem usar a Palavra para julgar e condenar as pessoas ou podem usá-la para amar. (...)

O amor incondicional que Asher sente pelo filho não o faz aceitar seu afastamento. Assim, ele o sequestra e parte em uma viagem em busca do irmão, em uma longa caminhada para se redimir consigo mesmo. O final dessa jornada mudará a vida dele, a do filho e as das pessoas que ele vai encontrar pelo caminho, e mais ainda: Justin e Asher vão descobrir uma nova dimensão dos significados de fé e amor.

“Perdoar é a coisa mais fácil do mundo, ele acha. Tudo o que você precisa fazer é decidir perdoar e está feito. Você se sente melhor imediatamente, é como empurrar um cobertor pesado demais para você dormir bem. Esquecer é a parte mais difícil.”


Há muito tempo eu não lia uma história que me impactasse tanto, que me fizesse refletir. A escrita de Silas House leva a isso: cheia de conotações e rica em detalhes, ela espelha sentimentos já vistos, ou até mesmo vividos — ouso dizer — sobre o tema abordado. Dependendo da sensibilidade da pessoa, no momento que a lê, é quase certo sentir um incômodo nó na garganta em determinadas passagens, pela força sutil que as palavras possuem.

Basicamente, o livro coloca lado a lado as crenças religiosas e os preconceitos que podem advir dela, principalmente quando as pessoas se prendem ao papel de Deus e julgam indiscriminadamente, sem se ater que a Palavra se resume, no final de tudo, em amor, em tolerância e aceitação ao próximo.

Nosso personagem, Asher, como pastor, conhece a bíblia. No entanto, seus preconceitos, incutidos em sua mente desde jovem, parece não o ter deixado interpretá-la devidamente, e somente quando a realidade colide contra ele, abrindo seus olhos para além da fé que tão cedo aprendeu, passa a ver o resultado das suas escolhas, dos seus sermões, como algo nocivo. A fé que ele segue, que ensina, termina por segregar, e não acolher as pessoas.

A sua jornada com o filho, mais que uma fuga, é uma busca de si mesmo, da pessoa que ele escondeu por trás dos preceitos religiosos que o prenderem e o fizeram se esconder dentro de si.  Justin, seu filho, cresce durante a viagem, seus pensamentos e reflexões são doces e ao mesmo tempo fortes, o autor colocou nesse personagem infantil uma força adulta que se reflete nos seus conceitos sobre fé e Deus.

A evolução dos personagens se mostra inclusive na forma da narrativa. O livro é dividido em 04 partes, que acompanham essa evolução, inclusive a narrativa tem uma mudança sutil que percebemos, com relação ao tempo verbal, passa do pretérito para o presente, como que simbolizando o antes e o depois dos personagens.

Creio que no momento atual que vivemos é uma leitura indispensável para refletirmos: Se sua religião indica a segregação dos que não são “iguais” a você, repense a que está baseado verdadeiramente sua fé.

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4 comentários :

  1. Lucilene!
    Acho importantíssimo podermos discutir, através do livro, posturas religiosas extremistas em relação aos relacionamentos, sobre preconceito, família, amor, erros e acertos, enfim, achei imprescindível a leitura desse livro que parece nos fazer refletir e repensar algumas posturas, além de abrir nossos olhos sobre determinadas atitudes que tomamos, por vezes até de forma inconsciente.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Que leitura importante, infelizmente ainda vivemos num mundo onde as pessoas pregam o amor ao outro mas só se "ele pesar como eu". Qualquer coisa diferente disso não será aceito e é triste pensar no quanto isso acontece diariamente. Muito bom ver que cada vez mais essas pautas estão sendo trabalhadas na literatura. Quero ler!!

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  3. Parece ser um livro muito interessante, é bom abordar a religião, para podermos analisar nossos conceitos, o preconceito das pessoas e do próprio Asher o levou a pensar sobre comportamento e atitudes, mexeu com ele, assim como mexe com a gente também deve ser um grande aprendizado essa busca dele e podermos acompanhar nos leva a refletir sobre nos mesmos e nossas atitudes.

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