08 março 2019

[Resenha] Americanah - Chimamanda N Gozi Adichie

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra.
Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.
Principal autora nigeriana de sua geração e uma das mais destacadas da cena literária internacional, Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. Bem-humorado, sagaz e implacável, Americanah é, além de seu romance mais arrebatador, um épico contemporâneo.

Livro:   Americanah  || Autor: Chimamanda N Gozi Adichie 
 Editora: CIA || Ano: 2014 || Gênero: Romance
 Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Karina 

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Chimamanda já é referencia de exemplo a mulheres a se conhecer desde sua famosa palestra no TED Talk que viralizou quando ela falou sobre “Sejamos todos feministas”, mas na data tão simbólica de hoje décimos trazer “Americanah” que nos conta a história de Ifemelu (Ifem para os íntimos), uma Nigeriana que imigrou para os Estados Unidos, formou-se e decidiu voltar para a Nigéria, um recorte de mulher numa cultura completamente diferente da nossa com uma bagagem absurdamente distante mas que ainda sim conversa muito com vários pedaços nossos.

Durante o livro vamos nos deparar com lembranças da infância, adolescência e o momento atual; e é aí que conhecemos personagens secundários como Obinze, o primeiro amor (por quem vamos torcer durante o desenrolar do livro) e que também se muda para a Inglaterra em busca de uma vida melhor que a do seu país poderia oferecer (país esse onde nem tudo são flores como se espera de um país de primeiro mundo), Dike, o primo fofinho de Ifem, o ex-namorado Blaine e Ginika, uma das amigas.

Aquilo lhe causava uma estranheza desorientadora, porque sua mente não mudara no mesmo ritmo que sua vida, e ele sentia um espaço oco entre si próprio e a pessoa que supostamente era.

Se você espera ler “AMERICANAH” como um romance talvez você não vá gostar do livro, o romance é um ponto bem fraco, serve quase só como linha que amarra ou orienta a história; mas em hipótese nenhuma isso desmerece o livro, a narrativa é fluida, parece que estamos ouvindo Chimamanda nos contar a um depoimento de sua própria boca, logo as mais de 500 páginas são surpreendentemente lidas e nem se percebe. O background de “Americanah” é uma abordagem sutil e profunda sobre questões raciais que vão além de Negros X Brancos, Estados Unidos X Nigéria.

A América Latina como um todo tem um relacionamento muito complicado com a negritude que é ofuscada por toda aquela história de ‘somos todos mestiços’ que eles contam para si mesmos.

Quando Ifemelu está nos Estados Unidos ela cria um blog para compartilhar suas visões da sociedade americana, o Raceteenth, ou observações diversas sobre Negros Americanos (antigamente conhecidos como Crioulos) feitas por uma Negra não Americana; e a partir daí uma infinita camada de reflexões pode ser levantada através dos textos de Ifem para o blog e das situações na vida pessoal dela.

Mas raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo, é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo.

Os problemas levantados por Chimamanda no livro são universais e vão desde desigualdade de gêneros, imigração, preconceito racial até conflitos culturais e feminismo; é um livro longo, denso, mas de leitura fácil e tranquila além de muito importante; é aquele livro que você fecha a última página e termina a leitura transformado e questionador.
Até onde os padrões impostos pela sociedade irão nos levar?

A única razão pela qual você diz que raça não é um problema é porque você gostaria que não fosse. Todos nós gostaríamos disso. Mas é uma mentira. Eu vim de um país onde raça não é um problema; e eu nunca me vi como uma negra, eu só me tornei negra quando vim para esse país.


Chego ao final dessa resenha com a certeza de que “Americanah” não é só um livro, Chimamanda nos dá uma aula de como ler, pensar, refletir e desconstruir.

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3 comentários :

  1. Nossa que indicação maravilhosa. Que bom ver cada vez mais temas importantes como esses sendo abordados nas paginas dos livros. Gostei muito da premissa, de como a autora abordou tantas críticas sociais importantes mas de um jeito fácil de ser lindo e ainda acrescentou uma pontinha de romance na trama. Imagino como foi difícil mudar para um país tão diferente do seu e depois retornar as suas origens encontrando tudo de uma forma diferente. Quero muito ler

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  2. Karina!
    Estou com esse livro aqui para leitura e espero fazê-la logo.
    Já o que achei mais interessante é poder apreciar um romance que além de envolver várias temáticas polêmicas é escrito por uma nigeriana. Bom poder ler uma autora fora dos ciclos convencionais: EUA, Inglaterra, Brasil, etc..
    Fantástico! E se a escrita em 3ª pessoa é tão envolvente (talvez porque seja um pouco da autora impresso no livro) melhor ainda.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Leitura de livros assim são imprescindível, nos inspiram, mexem com as nossas emoções, nos deixa pensando sobre os problemas abordados e se questionando até quando as coisas vão ser assim. Não ligo quando o romance é fraco, levinho, pra mim o importante é ter rs. Gostei de saber que é uma leitura fácil assim as páginas passam com uma fluidez que nem percebemos.

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