15 janeiro 2019

[Resenha] A vida escolar de Jesus - J. M. Coetzee


Com este livro, o ganhador do Nobel J. M. Coetzee prossegue a hipnótica narrativa que inaugurou em A infância de Jesus e leva o leitor a uma jornada existencial única.
"Nós temos, cada um de nós, a experiência de chegar a uma nova terra e nos atribuírem uma nova identidade. Nós vivemos, cada um de nós, com um nome que não é o nosso. Mas logo nos acostumamos a isso, a essa vida nova, inventada." Com essas palavras, Simón, o personagem central deste romance, define a situação tranquilamente absurda em que se encontra. O adulto Simón e o menino Davíd, que não se conhecem, desembarcam de uma inexplicada viagem de navio em um lugar indeterminado, numa cidade chamada Novilla. Simón encontra Inés, que abandona seus irmãos e resolve adotar o órfão Davíd. A peregrinação dos três representa uma iniciação existencial em terra estranha, que gira inteira em torno da educação do menino. Logo os dois adultos conseguem trabalho numa fazenda administrada por três irmãs e Davíd é matriculado numa inusitada escola de dança, onde se aprende a harmonia do universo através da dança dos números. Ao tangenciar os gêneros clássicos — o drama, a fantasia, a fábula, a aventura, a alegoria — Coetzee arrasta o leitor por uma atordoante e provocadora simplicidade narrativa. E prova mais uma vez por que é um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea.


Livro: A vida escolar de Jesus  ||  Autor:  J. M. Coetzee
 Editora: Companhia das Letras || Ano: 2018  ||  Gênero: ????
 Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Renata
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O livro “A vida escolar de Jesus” nos traz muitos temas para pensar sobre. Somos convidados a observar os acontecimentos que acomentem Símon, David e Inês, uma família recém-constituída chegando a cidade de Estrella e começando a vida como trabalhadores do campo. Nesse começo, percebemos as diferenças dessas família, a genialidade de David e como eles se encaixam nessa sociedade. 

O conflito principal é a educação de David, como ele é uma criança deveras agraciada com um pensamento diferente do normal, a grande luta é como educar um ser que parece compreender tudo? Inês é a favor da educação formal, onde ele aprenda as matérias, Símon também concorda mas não vê a tamanha importância e David, como uma criança mimada só vai discordando pelo caminho.

Aos poucos somos agraciados com David e sua maneira peculiar de sentir, seu modo de ver a vida e considerar todos os seres dignos de viver, quando ele entra em um conflito com uma amiguinho porque esse matou um pato e David ficou discorrendo sobre os sentimentos dos animais, mas não de uma forma infantil. Destacando que Coetzee tem muitos de seus livros estudados para ciências animais. 

As donas do campo onde eles trabalham percebem a necessidade do menino em estudar para dar vazão aos pensamentos. Pela forma como é exposto, existe uma dualidade em relação a David, como uma felicidade por ele ser supostamente tão agraciado e uma espécie de ressentimento por uma criança não ser como as outras. E começam a busca pelos educadores de David. O primeiro escolhido é um engenheiro, o senhor Robles que educa por amor e que cobra barato. O casal faz o contato e estabelece o começo das aulas. Robles é descrito como um homem de inúmeros talentos, um engenheiro hidráulico que tem inúmeros talentos. Os pais entram em acordo com ele e as aulas começam.

Contudo, essa primeira experiência não é positiva, vemos David entrando em confronto com o senhor Robles por questões relacionadas ao método de ensino. Existe uma classificação do que seria benéfico aprender e começam com a matemática. O método utilizado inicialmente é juntar o mesmo número de objetos e analisar sua semelhança, mas o tiro sai pela culatra quando David dá uma resposta que sai do escopo aceitável pelo senhor Robles. A confiança dele na única possibilidade educacional é tanta que mesmo ciente que o menino tem uma maneira diferente de pensar, ele o classfica como deficitário cognitivo, diz que o máximo que ele pode alcançar é ser um trabalhador braçal, um encanador e que a maior prova de amor que os pais poderiam lhe oferecer em relação a educação é colocá-lo em uma escola técnica. 

Ressalva importante: Não existe diferença na dignidade em relação a nenhuma profissão, todas são necessárias para o andamento da sociedade, contudo, não podemos esquecer que ainda existe uma escala de valores distorcidos e que se conectam com o suposto prestígio que determinada profissão pode oferecer. Quando Robles encaixa David nesses termos, ele está ditando que ele não consegue ir além do que ele acredita ser o ideal. 

David, quando confrontado sobre a maneira que se comportou com senhor Robles diz a seguinte frase: “Porque do jeito dele você tem que ficar pequeno. Tem que ficar pequeno igual a uma ervilha, e depois pequeno igual a uma ervilha dentro de uma ervilha, depois dentro de uma ervilha dentro de uma ervilha, dentro de uma ervilha. Depois pode fazer os números dele, quando é pequeno, pequeno, pequeno.” Uma frase muito forte que nos demonstra a premissa da educação formal, como ainda existe a necessidade de diminuir individualidades para encaixar em determinado molde visto como o aluno ideal.



Depois desta tentativa mal sucedida, as irmãs indicam uma academia de dança na cidade de Estrella. Como a lida do campo acabou, não tem mais motivos para que David, Simon e Inês fiquem na fazenda. As irmãs muito impressionadas com David, querem que ele seja educado e fazem questão de ajudar financeiramente com a escola. Essa academia de dança é famosa pela forma pouco usual de educar. Existe todo um mistério metafísico na maneira como as crianças são educadas, saindo do molde usual e deixando o leitor pensando que pode ser uma espécie de charlatanismo, considerando que é uma academia de dança e eles dizem que também podem oferecer uma educação formal, contudo de uma maneira diferente. A prioridade é a dança. 

Então somos apresentados a mais personagens que compõem o círculo da academia de dança: Ana Magdalena, señor Arroyo, Dimitri e os amigos de David. Esse novo círculo nos mostra as mudanças acontecendo de forma gradual, porém intensa. A dinâmica familiar vai se transformando conforme David se torna mais afeiçoado aos costumes da academia e vai absorvendo aquilo como verdade. Ele, como a cola que une o seu círculo familiar, vai se desgarrando da família, o que muda totalmente a dinâmica do suposto casal. Inês começa a se sentir mais segura financeiramente conforme seu papel materno é diminuído conforme o progresso mental de David. E nesse contexto somos confrontados com todos os tipos de situação que tratam de emancipação feminina, inserção no mercado de trabalho, intelectualidade x trabalho braçal, as inúmeras facetas da educação e seu papel emancipador de mentes e almas.

Além de toda a temática apresentada, temos um crime bárbaro na cidade que traz um debate muito interessante sobre nuances de justiça, o que é culpa, o que não é culpa e como fazer para expiar os pecados. Dançamos na fronteira do que é certo, errado e usual, limites do amor e até onde ir para realizar seus desejos.

Essa foi uma resenha difícil de se escrever pelo simples fato que o livro aborda tantos assuntos que mexem com o que pensamos, que requer um certo tempo para digerir tudo. Mas isso, no meu caso, agravou pois sou professora, e é deveras complexo você ter um ideal sobre educação e ele se mostrar errôneo ao longo do tempo. Porque o que ele expõe, os problemas dessa padronização são exatamente assim. Às vezes, pecamos pelo excesso de simplificação. Claro, é muito complicado você individualizar o processo educativo, principalmente escola onde a premissa é o máximo de alunos em cada sala e o professor que se vire, mas temos apenas o ponto de vista do professor para nos basear, não sabemos como isso afeta a criança, a família que se sente deslocada por ter uma criança assim sob seus cuidados, não saber lidar com essa peculiaridade e colocar em xeque tudo aquilo que a gente acreditava que era o certo e ter que constatar que não deveria ser assim. 

Coetzee sempre nos chama a pensar sobre o que é diferente, sobre educação diferente, sobre a idade a se educar, sobre como sair dos moldes.

Esse é um livro que transforma conceitos a muito arraigados, nos coloca para pensar fora da caixa. É uma leitura muito dinâmica, onde mesmo com a alternação do ponto de vista, a gente não se perde. Contudo são tantos ensinamentos, tantas ideias que é necessário prestar atenção. 

Coetzee escreve contextos complexos de forma simples para que seu leitor tenha o gosto de entender e aprofundar os mais belos questionamentos. Se tem algo a absorver deste livro, é a vontade de fazer perguntas. 

É uma leitura riquíssima. Espero que gostem.

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2 comentários :

  1. Leitura interessante e reflexiva, David e uma criança fora do comum, é uma pena que não sabiam como educá-lo, talvez pelo medo do desconhecido, deve ter sido muito frustrante para ele. A escrita ainda bem que é simples, pois deve se ler com muita atenção e pensando em tudo que acontece na vida do pequeno personagem. Achei interessante ter inserido um crime na trama, deve ter mexido mais ainda com a mente do leitor.

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  2. Renata!
    Tão bom quando um livro aborda vários temos que nos levam a pensar, refletir e ver várias possibilidades para as resoluções.
    Gostei do plot principalmel, sobre a educação de uma criança ben 'dotada' de intelectualidade.
    cheirinhos
    Rudy

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