10 janeiro 2019

[Resenha] Habibi - Craig Thompson

Habibi é a saga de dois escravos fugitivos, unidos e separados pelo destino, vivendo no limite que separa a tradição da descoberta. Dodola, uma garota perspicaz e independente, foge de seus captores levando consigo um bebê. Eles crescem juntos no deserto, sozinhos em um navio naufragado na areia. Em meio a sentimentos cada vez mais conflitantes, os dois passam o tempo contando histórias. Assim, somos apresentados também à origem do islamismo e de suas tradições, conforme as narrativas se combinam numa trama de aventura, romance, filosofia e tragédia. Para contar a saga de Dodola e Zam, Craig Thompson recorreu ao Corão e às Mil e uma noites. Do primeiro, colheu o próprio estilo do livro, inspirado na caligrafia árabe, e também as narrativas do texto sagrado dos muçulmanos, recriadas com maestria pela pena do autor. Do segundo, tirou um cenário fantasioso, repleto de lendas e histórias, uma versão quase mitológica da nossa ideia de Oriente. Ambientado nos dias de hoje, Habibi não se passa em nenhum país conhecido. É uma terra igualmente fantástica e concreta, onde questões presentes se misturam a indagações ancestrais. Crítica social, questionamentos ecológicos, paralelos entre religião e amor: tudo encontra seu lugar nesta narrativa tão épica quanto particular. Fruto de sete anos de pesquisas e trabalho, Habibi é um monumento do quadrinho moderno e uma resposta atual a questões que nos perseguem desde sempre. - "Cortante, Habibi é um enorme feito de pesquisa, cuidado e tinta preta, e um lembrete de que todos os 'povos do livro', apesar das diferenças, dividem um mosaico de histórias." Zadie Smith, Harper's Magazine.

Livro: Habibi||  Autor: Craig Thompson
Editora: Quadrinhos na Cia|| Ano: 2012 ||  Gênero:  HQ
 Classificação:  5 estrelas ||  Resenhista: Karina

Quando eu terminei essa leitura de mais de 600 páginas, eu só conseguia pensar: QUE OBRA DE ARTE! Não que eu seja uma espécie de expert em obras de arte, mas quando li, percebi que estava diante de algo bem diferente. Craig Thompson levou 8 anos para desenvolver arte e roteiro, então já dá para imaginar o tamanho da entrega do autor.



Vamos acompanhar duas crianças, Dodola e Zam, dentro da cultura árabe/Islâmica. Dodola é uma criança dada como o pagamento de uma dívida, uma criança que é obrigada a CASAR aos 9 anos [sabemos que esse absurdo é “cultura” em alguns países, mas essa não é nem a pontinha das polêmicas que o livro vai abordar].

 O marido, que é um escriba, ensina Dolola a ler, o que não é comum para mulheres/ garotas (e o fato de saber ler será uma coisa muito importante ao longo da narrativa);. Quando o marido é assassinado, ela, ainda criança, é capturada para ser escrava, e ao fugir, leva consigo uma outra criança, o Zam. O plot se desenvolve durante longos períodos de encontros e desencontros dessas duas crianças, que se tornam dois adultos cheios de nuances e características apaixonantes.


O nível de detalhe das ilustrações é incrível e o espaço temporal não dá para ser definido, mas acompanhar o crescimento dos dois é maravilhoso, dá para dividir em 3 atos de acontecimentos, e o final é de arrancar lágrimas até dos corações mais peludos. 

As passagens têm páginas duplas de desenho, em outras páginas, os storyboards não têm nenhum desenho, apenas texto com alguns respiros. Apesar de sempre achar que leio HQs mais rápido, esse é um quadrinho para apreciar sem nenhuma pressa todos os detalhes das páginas.


Dentro dos assuntos que são abordados durante a vida de Dodola e Zam, estão passagens do alcorão, a fragilidade do humano - entre relações interpessoais e com o meio em que estamos inseridos. Todos os traumas psicológicos  -aqui cabe o aviso que pode conter gatilhos de estupro, mutilação sexual, prostituição - que os protagonistas sofrem, constroem personagens complexos que ao mesmo tempo flertam com referências de literatura que já são clássicos consagrados, como “Mil e uma noites”. Além de incitar as discussões de gênero e escravidão nos tempos atuais sem ser panfletário.


Craig tornou-se, sem dúvida, um dos meus quadrinistas favoritos. Habibi é uma obra tão completa e complexa que com a mais absoluta certeza eu deixei passar muita coisa. Toda a representação gráfica da caligrafia árabe deve ter um significado muito maior do que eu identifiquei. É um quadrinho que eu indico sem medo e que quero voltar a ler muito em breve, quero discutir com a Lud ( minha parceira de leitura de HQs) e quero que vocês deem um chance rs! Esse é um quadrinho relativamente caro, mas que vale cada centavinho.

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Um comentário :

  1. Karina!
    Memo que o livro tenha 600 páginas, com essas ilustrações fabilosas e um enredo que prende do início ao final, deve ser extasiante.
    cheirinhos
    Rudy

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