07 janeiro 2019

[Resenha] Fique comigo - Ayobami Adebayoa


Fique Comigo
Finalista do Baileys Women’s Prize for Fiction, este romance de estreia inesquecível ambientado na Nigéria dá voz a marido e esposa enquanto eles contam a história de seu casamento — e as forças que ameaçam destruí-lo. Yejide e Akin se apaixonaram na faculdade e logo se casaram. Apesar de muitos terem esperado que Akin tivesse várias esposas, ele e Yejide sempre concordaram que o marido não seria poligâmico. Porém, após quatro anos de casamento — e de se consultar com médicos especialistas em fertilidade e curandeiros, tomar chás estranhos e buscar outras curas improváveis —, Yejide não consegue engravidar. Ela está certa de que ainda há tempo, mas então a família do marido aparece na sua casa com uma jovem moça que eles apresentam como a segunda esposa de Akin. Furiosa, chocada e lívida de ciúmes, Yejide sabe que o único modo de salvar seu casamento é engravidar. O que, enfim, ela consegue — mas a um custo muito maior do que poderia ter imaginado. Um romance eletrizante e de enorme poder emocional, Fique comigo não apenas debate as questões familiares da sociedade nigeriana, como também demostra com realismo as mazelas e as dificuldades políticas enfrentadas pela população desse país nos anos 1980. No entanto, acima de tudo, o livro faz a pergunta: o quanto estamos dispostos a sacrificar em nome da nossa família?

Livro:  Fique comigo  ||Autor: Ayobami Adebayoa  
Ano: 2018 ||  Editora: HarperCollins Brasil|| Gênero: Drama
Classificação: 3 estrelas || Resenhista: Sheila

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Fique comigo é um livro da autora Ayobami Adebayo, e ao ler o livro, é importante situar sua origem: a autora é nigeriana, e por isso os fatos que ela relata dentro desse drama familiar relatam a estrutura familiar e conjugal típica da Nigéria, assim é necessário despir os pensamentos sobre o que significa uma família, um casamento e a mulher na sociedade brasileira. 

A história retrata o casamento e a vida conjugal e familiar de uma mulher, Yejide, com seu marido Akin. Conseguindo se desvincular de nossos costumes, é possível ler de forma um pouco, senão mais  neutra, consciente de que nem todos os lugares do mundo são iguais e se acostumar à ideia de que casamentos podem ser poligâmicos, e que apesar dos dois personagens se bastarem e escolherem  uma relação monogâmica, o que impera como felicidade de um casamento nigeriano feliz são os filhos.

Após quatro anos casada, Yejide ainda não possui filhos, e aí vemos outro fato chocante aos meus olhos brasileiros, o quanto a família do noivo, principalmente as mulheres, mandam e desmandam na vida do casal. Como a protagonista não consegue ter filhos, a mãe de Akin começa a apresentar uma série de moças para ele tomar como segunda esposa, e isso causa sempre conflitos entre o casal.

Akin não deseja uma segunda esposa, assim você teria um sentimento feliz pelo esposo, do tipo: poxa que bacana, ele a ama, é correto, vai dar certo! Não e não; Akin não quer uma segunda esposa porque ele terá que vivenciar duas vezes o fardo  com ambas as mulheres que ele, sim, ele, é impotente, não consegue manter uma relação sexual facilmente e nem admitir isso.

A mãe de Akin tanto que faz, que consegue o convencer de um segundo casamento, onde ele mantém uma mulher, a princípio, fora de casa, em outro lugar, e apenas a visita. Descobrimos, nós leitores, que ele é impotente assim: a segunda mulher não casou virgem, como Yejide,  e sabe como são relações sexuais de fato e estranha o fato de ele nunca conseguir manter uma ereção, e assim, a segunda esposa confronta a primeira esposa, que neste momento, pasmem, está grávida.

Grávida? Como assim? O marido não é impotente?? Sim, é... Akin tem um irmão que convence, suborna, enrola para que seduza Yejide e a leve a ter relações com ele para garantir um filho, sem explicar à esposa e ao irmão que o culpado da ausência de filhos é ele, obviamente.

Para piorar a situação, lembram da segunda esposa? Akin a empurra de uma escadaria e ela morre tragicamente, pois ela ousou confrontá-lo. Tudo isso relatado em um livro que situa Akin como uma pessoa bondosa, calma e que ama a esposa; a autora não o pontua como um monstro, quase que psicopata, que trama as coisas e faz artimanhas sempre privilegiando ele mesmo.



Yejide tem o primeiro filho, que morre bebê, e isto a destrói. O segundo também morre, e na terceira filha, ela já não se apega à criança para evitar sofrer em sua morte. A relação entre ela e o cunhado se aprofunda, e o desejo sexual entre eles é explorado no livro, e Akin, ao ver uma cena de sexo entre os dois – o irmão e a esposa – se sente o marido traído e revolta-se. Lembremos que este foi o plano dele para não admitir perante os pais e a sociedade que poderia ter 30 mulheres e nunca conseguiria engravidar nenhuma.

Quando a terceira filha de Yejide ameaça morrer, ela resolve mudar a vida e se muda para outro lugar, abandonando tudo, seu salão de cabeleireiro, sua vida e vai se reconstruir. 

Não contarei o final, ele surpreende, e na minha opinião mais uma vez mostra o egocentrismo de Akin, que posa a meu ver de salvador.

Gostaria mais que a parte política fosse melhor apresentada pela autora, vemos presidentes depostos e ditadores subindo ao poder em quatro relances do livro, mas a autora não se expressou em relação a isso, ou foram conversas de rádios rápidas na qual a família escutava, não sei se a autora teve receio de ser punida pela escrita.

Não gostei do livro, achei que duas coisas podem ter acontecido para a autora, a qual conheço apenas pelo que li e não havia muita profundidade, e elas envolvem a ausência do rótulo para Akin como  o psicopata que é:
- ou esse contexto é tão real para ela e as mulheres nigerianas que relatou esse homem como sendo apenas normal, humano, e assim as maquinações do mundo masculino e a opressão das próprias mulheres às mulheres, ela apenas descreveu e não opinou sobre, pois são consideradas normais,
- ou ela fez questão de nos fazer sentir assim impotentes e revoltadas pelas ações e dessa forma mostrar como as mulheres são impotentes em relações assim.

É um livro tenso, revoltante, angustiante, que não me arrependo de ler, mas que não relerei, serviu para ser reflexivo e nos mostrar mais uma faceta das inúmeras sociedades que coexistem nesse planeta.

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3 comentários :

  1. Olá Sheila!
    Eu conheço pouquissímo da cultura nigeriana, mas a acho bem maldosa em alguns sentidos, vendo a autora tem essa nacionalidade, acredito que com o personagem ela quis passar o que muitas mulheres por lá vivem todos os dias, é uma sociedade machista.
    Construir o Akin como alguém bondoso só aponta a forma como os homens são vistos, mesmo que no fundo não seja verdade.
    Uma pena que não gostou do livro, eu o achei bem forte, pesado, mas com uma história real, gostaria de ler.
    Beijo

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  2. Sheila!
    Deve ser um livro doloroso, cruel e sofrido, ainda assim, podemos conhecer um pouco mais sobre a vida das mulheres e o casamento na Nigéria, por esse lado, o livro deve ser intrigante e instigante, o que traz a curiosidade.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Gostaria de ler, não conheço sobre a vida conjugal da Nigéria e gostaria de saber mais, achei um absurdo o personagem não assumir sua impotência, geralmente colocam a culpa na mulher, nunca pensam que podem ser do homem, pois seria uma vergonha, vi isso em uma novela e lá parece ser assim, deve dar uma revolta essa leitura. E fiquei curiosa em saber se a personagem conseguiu seguir sua vida depois que se mudou.

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