08 janeiro 2019

[Resenha] Eu receberias as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino



Numa cidade de garimpo do Pará, conflagrada pelas tensões de uma corrida do ouro, um fotógrafo vive uma paixão clandestina com uma mulher misteriosa e sedutora. Mesmo sabendo dos riscos do jogo, ele decide ir até o fim - e agora está de volta para relatar o que viveu.



Livro:  Eu receberias as piores notícias dos seus lindos lábios 
Autor: Marçal Aquino ||Ano: 2018 ||  Editora: Companhia das Letras  || Gênero: Romance Contemporâneo
Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Karina

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“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” é um livro que só pelo título me encantou, somando isso ao fato de ser um livro nacional que ficava repetidamente aparecendo no meu feed como sugestão de leitura e todas as resenhas que eu li, nenhuma apontavam defeitos, fez com que minhas expectativas estivessem altíssimas e ainda assim, não houve algo que eu desgostasse, essa minha leitura foi uma sólida experiência de 5 estrelas.

O amor é sexualmente transmissível.

O plot é bem simples: acompanharemos um caso de amor, um caso tórrido narrado em primeira pessoa, a voz protagonista é uma voz masculina; uma história contada a partir das lembranças do Caubi, um fotógrafo que morou por algum tempo numa cidade no interior do Pará e que atualmente voltou para SP e está morando em uma pensão. Nessa pensão, existe um senhor (Altino/ Careca) que conta sobre um amor que não conseguiu viver, esses dois casos são mesclados nos levando a encarar as diversas facetas do amor.

Ela me abraçou e encostou a cabeça em meu peito, bem em cima do meu coração atropelado. E falou apertando as minhas costas: Entra em mim. Olhei para a porta do quarto: lá dentro nos esperavam os lençóis enrugados da cama arrumada com pressa e imperícia. Lavínia notou que eu olhava para o quarto e abriu meu cinto. Sussurrou: Aqui. Foi igual adentrar um território sabendo que ele tem dono: com curiosidade e medo. Uma invasão. Lavínia livrou-se das sandálias e deixou que eu a despisse. Depois, tirou as minhas roupas. E acabamos no chão, sobre o tapete. Ela por cima. Antes de mais nada, porém, o inferno das nossas obsessões. Ela levantou-se e me olhou de um jeito estranho. Achei que tinha mordido seu lábio com furor excessivo. Não era isso: Lavínia tirou a aliança e jogou dentro da bolsa. Disse: Um pouco de decência não faz mal a ninguém.

Caubi conhece Lavínia quando, no interior do Pará, vai a uma lojinha de fotografia e lá tem um retrato da moça. O único problema é que a doce mulher já é casada com o pastor da cidade. A construção da narrativa é lenta e eu demorei a me apegar à história, mas a sensação de que tudo poderia dar muito errado é tão constante que a tensão criada não me deixou largar o livro.

O autor constrói críticas muito inteligentes, tem um personagem que claramente é pedófilo, e todos que o cercam sabem disso, mas parecem não se importar, pois afinal não é um problema que os afeta diretamente. O senso de justiça é por diversas vezes questionado, e enquanto leitora, me peguei torcendo para que algumas coisas dessem certas, mesmo não estando completamente corretas.

A vida da maioria das pessoas é medíocre, o que não as impede de enxergar tudo numa perspectiva heroica. Suportamos a existência tentando converter o banal em épico.

Todos os personagens são bem construídos, desde detalhes curiosos como o Caubi ter um tatu como animal de estimação [insira aqui um berro para esquisitice], passando pelas duas personalidades da Lavínia, que é toda quieta, ingênua, até que está a sós com o Caubi e se transforma na Shirley. Descobrir o passado da Lavinia me fez refletir quantas mulheres existem por aí e são negligenciadas. Todo esse background psicológico é amparado pelo pano de fundo da história, que tem a corrida do ouro que acontecia nos garimpos do norte.

O careca não cansa de repetir que a esperança é o pior dos venenos? É. Porém muitas vezes é também o único remédio.
Quando eu digo que o livro é bem escrito, não quer dizer que ele tenha um vocabulário diferentão, mas toda a estrutura é muito bem pensada. Durante a estória, Caubi lê um livro chamado: O Que Vemos no Mundo: Um Tratado sobre o Amor Humano, de Benjamim Schianberg”, e esse livro e as passagens que o personagem cita são criações do autor para o próprio livro, além de toda a ambientação e descrição da vulnerabilidade social do interior do país, que é maravilhosamente descrito.

Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.

Vamos nos atentar que o livro tem 232 páginas e eu ainda estou pensando nele, fico me perguntando como um livro tão curto pode ser tão profundo? Apesar de não ser um clássico [ainda], eu gostaria de ver esse livro em leituras obrigatórias nas escolas, enquanto eu li só conseguia pensar: “Quem é Capitu perto da Lavinia?” [por favor não me apedrejem].

Falamos, falamos, falamos. E mesmo assim faltou dizer tanta coisa. E escutar também. Ela nunca disse que me amava. Jamais ouvi de seus lindos lábios a sentença que pronunciei algumas vezes. 

Já no início somos avisados que essa história não vai dar certo, nos é alertado da potencialidade de dar muito ruim, e vai dar, sentimentos universais junto com entregas desesperadas é uma receita para a tragédia, mas o que me ganhou é a maneira como isso acontece.

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” – para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para mais loucura.

Espero que eu tenha convencido vocês a darem chance para essa leitura no ano que mal começou, e a minha dica mais valiosa seria: nada é tão preto no branco como às vezes imaginamos.

Para quem nunca ouviu falar do filme, vou deixar o trailer aqui embaixo. 


O filme (2012) foi dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, parceiros de longa data desde os tempos da faculdade. Os dois já tinham vivido essa experiência antes no filme Cão Sem Dono (2007).

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3 comentários :

  1. Karina!
    Acredito que pelo fato de chocar em alguns momentos e de nos fazer perceber que existem situações que mesmo sendo amorais, nos deixam entre a cruz e a espada, e acabamos torcendo pelo que nosso coração opta, mesmo sabendo que não seja justo.
    Gostei.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. É um título diferente e que chama atenção, despertou meu interesse em saber sobre a Lavínia personagem intrigante, aliás achei tudo muito intrigante nos personagens e sem falar que tem um pedófilo e eles nem ligam como assim. Parece ser uma leitura estranha mas ao mesmo tempo que envolve até a última página.

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  3. Oi Karina,
    Pelo que percebi o livro retrata muitos outros temas além do romance proibido, e sinceramente, isso me chama mais atenção, porque como não sou fã de enredos com traições, esse não me convence (tanto que Capitu e Bentinho também não KKK).
    Fica nítido que foi bem escrito, e olha, quantos elogios, fico feliz, bom quando um livro nos conquista assim!!
    Beijos

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