12 novembro 2018

[Resenha] O ódio que você semeia - Angie Thomas

Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.


Livro: O ódio que você semeia || Autor: Angie Thomas ||  Editora: Galera Record ||
Ano: 2017  ||  Gênero: Young Adult
Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Karina

Skoob || Compre || Editora

Participe do Top Comentarista de Novembro


Você provavelmente já ouviu falar sobre o título “O ódio que você semeia”, livro de estreia de Angie Thomas, que já é um grande sucesso e que no dia 6
 de dezembro ganha sua versão cinematográfica. A autora ganhou prêmios em 2017 com esse livro, que foi aclamado mundialmente. Esperei diminuir um pouco o hype para que a expectativa não estragasse minha experiência, mas vale adiantar que a história merece todos os elogios.

A verdade lança uma sombra na cozinha. Pessoas como nós e situações como esta se tornam hashtags, mas raramente ganham justiça.

O Ódio que você semeia conta a história de Starr Carter e é narrado em primeira pessoa. Conhecemos um evento traumático que ela passou aos 10 anos de idade, quando viu sua melhor amiga ser assassinada por um desconhecido. A narrativa mistura-se com a adolescência, onde essa situação ainda lhe persegue.

Starr divide seus dias entre dois mundos completamente diferentes. Enquanto está na escola, ela é a garota negra, que joga basquete e ama sua coleção de tênis. Durante esse período, procura sempre estar atenta às suas ações e respostas para que os estereótipos não sejam ainda mais reforçados. Quando Starr está em Garden Heights (o bairro violento da periferia onde mora) é uma adolescente de 16 anos que ajuda o pai no mercadinho do bairro (do qual ele é dono) e que implica com os irmãos. Enquanto isso, sua mãe, que é enfermeira, trabalha longos turnos para manter os filhos na escola particular. Para quem frequenta o mercadinho Starr, ela é apenas a garota que frequenta a escola de brancos.

Ter coragem não significa não ter medo. Significa seguir em frente, mesmo sentindo medo.  
Com um número de amigos bem reduzido e segmentado (seus mundos: o da escola e o de casa nunca se cruzam), sua vida está prestes a virar de cabeça para baixo mais uma vez quando ela vai em uma festa na vizinhança. 

Apesar de se sentir deslocada na festa, ela reencontra Khalil, um dos seus melhores amigos da infância, com o qual ela ultimamente não tinha muito contato. Ao saírem às pressas da festa por causa de um tiroteio, Khalil se oferece para deixá-la em casa e, no percurso, eles são parados pela polícia. Os pais de Starr desde muito cedo lhe ensinaram como deveria proceder ao ser parada pela polícia, mas Khalil não teve os mesmos conselhos e, com uma descrição de cortar o coração, a garota vê um amigo ser assassinado a sangue frio.
O plot gira em torno dos acontecimentos após a morte de um jovem negro por um policial branco. O interesse da mídia cresce cada vez mais e, uma vez que a garota é a única testemunha do que realmente aconteceu, Starr é a peça chave desse caso que ganha ares internacionais.
Às vezes, você pode fazer tudo certo, e mesmo assim as coisas dão errado. O importante é nunca parar de fazer o certo.

Cheio de referências que farão você se identificar em algum nível com adolescentes que amam desde Harry Potter, passando por Um maluco no pedaço até Tupac Shakur, o plano de fundo é culturalmente muito rico. Mesmo que você viva numa bolha social, e nunca tenha sequer imaginado que a realidade de Starr é a de muita gente, o livro não deixa de ser um tapa na cara a cada página.
Todo o enredo familiar da Starr é muito bem construído e de aquecer o coração, nenhuma das interações que a garota tem ao longo do livro está ali por acaso. Angie Thomas conseguiu trazer todo o exercício de empatia que precisamos aplicar no nosso dia a dia .
 Dou uma risada e roubo umas balas dela. O namorado de Maya, Ryan, por acaso é o único outro menino negro do segundo ano, e todo mundo espera que a gente fique junto. Porque, aparentemente, se nós somos só dois, temos que participar de alguma p**** estilo Arca de Noé e fazer par para preservar a negritude do nosso ano. 
O enredo faz uma clara referência ao movimento “Black Lives matters” [em tradução livre] "As vidas negras importam" de origem nos Estados Unidos após o assassinato do jovem Trayvon Martin e outros jovens negros. A história é um grande exercício de empatia. Em contraponto à parte pesada do enredo, o dia a dia de Starr ainda traz alguns pontos de humor e drama adolescente. Ver Starr esconder o namorado branco do pai é garantia de alguns alívios na narrativa tensa.

O título do livro em inglês, foi mantido no rodapé da edição brasileira por ser muito importante na trama; “The hate U Give” é uma das várias referências ao rapper Tupac e seu slogan Thug Life (vida bandida. A palavra indica The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody [em tradução livre] 'O ódio que você passa para criancinhas fode todo mundo' é um dos questionamentos que você certamente não vai esquecer depois da ultima página.

Para descobrir se Khalil será apenas parte de mais uma estatística ou receberá a devida justiça e se os mundos da Starr vão se fundir, você vai precisar ler ou assistir ao filme. Porém, se eu pudesse deixar aqui só um conselho: está procurando um livro 5 estrelas? “O ódio que você semeia” é mais que isso, é um  livro que com certeza vai te sensibilizar profundamente. E, enquanto o filme não estreia, vale dar uma conferida no trailer:


Compartilhe!

3 comentários :

  1. Oi!
    Chega a ser triste ler um livro assim e perceber que vivenciamos isso no nosso dia a dia né?
    É uma história que vemos sempre em jornais, tv, etc. Pode parecer estar longe de nós, mas quantas Starr não passam por isso todos os dias?! Ainda não li, na verdade nem conhecia o livro, mas com certeza irei ler, e como você disse, TODOS devem ler esse livro! Adorei a resenha!! Tô louca para ver a adaptação também, adoro a atriz principal.
    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Gostaria muito de ler o livro e assistir o filme, deve ser uma historia que mexe e muito com as nossas emoções, é revoltante saber que historias assim acontecem e com frequência. Acompanhar a vida da personagem e suas decisões devem deixar a gente refletindo sobre como a vida é difícil para alguns, principalmente para os negros.

    ResponderExcluir
  3. O que eu mais gostei nesse livro é o fato de como a autora conseguiu trabalhar a questão do racismo de uma forma nua e crua misturando com cenas deletadas intensas ao mesmo tempo é simplesmente revigorante ver como temos tão necessários de serem debatidas tem ganhado espaços em mídias sociais e até mesmo na literatura

    ResponderExcluir





Copyright © 2017 Every Little Book. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS | OddThemes | ILUSTRAÇÃO: Yuumei