25 outubro 2018

[Resenha] Mamãe & Eu & Mamãe - Maya Angelou



Último livro publicado pela poeta e ativista, Maya Angelou, Mamãe & Eu & Mamãe descreve seu relacionamento conturbado com a mãe, a empresária Vivian "Lady" Baxter, com quem voltou a morar aos 13 anos, depois de dez sob os cuidados da avó paterna. É a jornada de uma mãe e filha em busca de reconciliação assim como uma reveladora narrativa de amor e cura. "Conduzindo-nos a um portal no qual acessamos em profundidade temas como casamento, cuidado, família, maternidade, lazer e trabalho, tendo como pano de fundo os EUA da segregação racial e da luta por direitos civis, Mamãe & Eu & Mamãe é um clássico, representativo do universo no qual Mulheres Negras são do começo ao fim autoras, sujeitas e donas de suas próprias histórias." - Giovana Xavier, Historiadora, Profa. Faculdade Educação UFRJ e coordenadora do Grupo Intelectuais Negras. 

 
Livro: Mamãe & Eu & Mamãe || Autor: Maya Angelou 
Editora: Rosa dos tempos || Ano: 2018  ||  Gênero: Biografia / Autobiografia
 Classificação: 5 estrelas || Resenhista: karina


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Você já ouviu falar da Maya Angelou? Não? Eu já tinha ouvi falar o nome dela no livro FALE! , mas deixei passar batido, só fui realmente conhecê-la esse ano quando o Google, em comemoração ao seu aniversário, lançou um doodle que recitava um de seus poema e eu fiquei apaixonada instantaneamente, então “Googlei” para saber mais e descobri que, além de ativista, ela é escritora, cantora, atriz, uma verdadeira gênia.

Além disso, a Emma Watson, que muito provavelmente todos conhecem, certo? Nossa eterna Hermione, criou um clube de leitura chamado “Our Shered Shelf ” [ "Nossa estante compartilhada"- em tradução livre] que discute livros com temáticas feministas em um grupo via “Goodreads”; o livro “Mamãe & Eu & Mamãe” foi um dos livros escolhidos nos últimos meses, e isso bastou para aumentar muito minha vontade de lê-lo.

E se ela tiver razão? Ela é muito inteligente e sempre diz que não tem medo o suficiente de ninguém para mentir. E se realmente fosse o meu destino me tornar alguém? Imagine só!

O livro é uma biografia da mãe da Maya, dentro da própria biografia dela. Apesar de ter sido criada pela avó dos 03 aos 13, a história da Maya e da mãe (Vivian Baxter) se entrelaçam, tornando-as quase uma mesma pessoa. 

A primeira década do século XX não foi uma época muito boa para se nascer negra, pobre e mulher em St. Louis, Missouri, mas Vivian Baxter nasceu negra e pobre, de pais negros e pobres. Mais tarde cresceria e seria considerada linda. Adulta, seria conhecida como a mulher cor de manteiga com o cabelo penteado para trás.

O livro começa narrando quem é a mãe da Maya, como Vivian foi criada, como e quando se casou e o que levou a mãe e o pai a despacharem Maya e o irmão Bailey, para morar com a avó paterna em um dos estados sulistas nos Estados Unidos.

Apesar do abandono parental, Maya viveu bons momentos com a avó, mesmo sem muitas demonstrações físicas de carinho, fica claro que a avó é uma das suas grandes referências da primeira infância. Durante a vida com a avó, nem tudo foram flores: Maya foi estuprada aos 7 anos de idade, seu estuprador foi preso, julgado e morto. A garota, desde cedo, entendia o poder de sua voz, acreditava que a morte de seu estuprador era consequência de sua delação e simplesmente parou de falar por 5 anos, falava apenas com o irmão. Eles viveram com a avó até que o irmão chegou à adolescência e a personalidade dele os colocou em perigo, devido aos discursos de ódio e de racismo comum naquela época.


Fonte: Imagem disponivel no site da Oprah

Na adolescência, Maya voltou a conviver com a mãe, mas existiam muitos pontos a serem acertados, tanto que, no começo, Maya sente distante e até magoada com a mãe por ter estado por tantos anos afastada, mas Vivian Baxter prova que foi a melhor mãe que Maya poderia querer.

Vou cuidar de você e de qualquer pessoa que você disse que precisa de cuidados, da maneira como você disser. Estou aqui. Trouxe todo o meu ser até você. Eu sou a sua mãe.
Maya foi a primeira mulher negra a trabalhar como condutora de bondinho em São Francisco, ainda na adolescência, e enquanto Maya trabalhava, sua mãe a protegia de longe. A mãe sempre a ajudou, mas nunca passou a mão em sua cabeça, sempre acreditou na filha, mas também sempre a alertou que haveriam muitas pedras no caminho; de stripper a professora universitária, Maya nos mostra que podemos ser o que bem entendermos, exatamente como a mãe dela,que sem amarras, também foi o que bem entendeu.

Você foi uma trabalhadora incansável - graças a você, mulheres brancas, negras e latinas zarpam do porto de San Francisco. Você foi chapeadora naval, enfermeira, agente imobiliária e barbeira. Muitos homens e - se não me falha a memória - algumas mulheres arriscaram a vida para amá-la. Nunca existiu pessoa mais grandiosa do que você. Você foi uma péssima mãe de crianças pequenas, mas nunca houve uma mãe de adolescentes melhor do que você. 
Sem dúvida esse livro é um baita aprendizado sobre o poder do amor, as dificuldades e belezas de uma relação entre mãe e filha, que atravessou épocas bem complicadas. A escrita de Maya nos leva ao passado de uma forma muito fácil, cada injustiça narrada parece que está acontecendo no presente momento, e a indignação vem fácil.

Com uma linguagem fácil, os fatos do passado são naturalmente relacionados com a nossa realidade,  pois todas as situações que Maya passou na infância e/ou adolescência vemos aos montes no noticiário; a realidade da mulher negra é abordada sem disfarces ou sutilezas. Infelizmente, ainda hoje há aqueles que acreditam que a descriminação atinge todos igualmente, mas não, o "lugar de quem fala" e "lugar de quem escuta" fica muito claro na narrativa. Obviamente, mulheres sempre ganharam menos com relação aos homens, mas o recorte de mulher negra nos faz pensar o quanto a mais de pedras elas precisam retirar do caminho, porque o preconceito com a figura feminina se soma ao racismo, cru e simples, criando uma objetificação danosa.

 O livro me deixa a mensagem que, mais do que nunca, precisamos ter uma rede de apoio, e que a sororidade é uma palavra que todas devíamos saber a definição. Exemplos e referências são a prova de que podem fazer a diferença: se Maya tornou-se o que se tornou é porque sempre teve em quem se espelhar ou quem a incentivava; acredito que a publicação de títulos como esse podem fazer das meninas e mulheres ainda maiores e mais fortes.


Terminei o livro com uma sensação de euforia. Como não as conhecia até agora? O bom é que descobri que tenho muito material para explorar. Depois de conhecer minimamente, fica aquele vazio querendo saber mais, e foi aí que cheguei a um dos poemas mais famosos de Maya,  que é o “Still I rise” [ “Ainda resisto” - em tradução livre]. O poema dá nome a um documentário da Netflix que é um material e tanto no complemento do livro. Se eu tivesse que definir o tema desse livro, seria: o poder de resistência das mulheres.

Vocês já conheciam a Maya? Depois de terminar o livro decidi que quero ler todos os que estiverem no clube da Emma, acredito que todos tenham o mesmo poder de transformação.

“Quer meus dias sejam tempestuosos ou ensolarados e minhas noites gloriosas ou solitárias, conservo uma atitude de gratidão. Se o pessimismo insistir em ocupar meus pensamentos, eu me recordo de que sempre existe amanhã. Hoje, eu sou abençoada”.

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4 comentários :

  1. Nunca tinha ouvido falar na autora, mas agora eu quero muito ler o livro e saber tudo sobre ela. Parabéns pela resenha!

    http://notasmentaisparaumdiaqualquer.blogspot.com/

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    1. O Bia, tudo bem? Sabe o que é bom de nunca ter ouvido falar da Maya, é que temos ummontãooo de material para explorar XD . Boa semana !!!

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  2. Oi, Karina,

    Uma história como a da Maya - ainda mais tendo a mãe como base - merece ser reconhecida por sua real significância, pois é uma leitura de tamanha importância.

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    1. Super concordo Dai, bora espalhar a Maya por ai ! Bjos.

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