29 julho 2018

[Resenha] A lista Negra - Jennifer Brown



E se você desejasse a morte de uma pessoa e isso acontecesse? E se o assassino fosse alguém que você ama? O namorado de Valerie Leftman, Nick Levil, abriu fogo contra vários alunos na cantina da escola em que estudavam. Atingida ao tentar detê-lo, Valerie também acaba salvando a vida de uma colega que a maltratava, mas é responsabilizada pela tragédia por causa da lista que ajudou a criar. A lista com o nome dos estudantes que praticavam bullying contra os dois. A lista que ele usou para escolher seus alvos. Agora, ainda se recuperando do ferimento e do trauma, Val é forçada a enfrentar uma dura realidade ao voltar para a escola para terminar o Ensino Médio. Assombrada pela lembrança do namorado, que ainda ama, passando por problemas de relacionamento com a família, com os ex-amigos e a garota a quem salvou, Val deve enfrentar seus fantasmas e encontrar seu papel nessa história em que todos são, ao mesmo tempo, responsáveis e vítimas.
A Lista Negra, de Jennifer Brown, é um romance instigante, que toca o leitor; leitura obrigatória, profunda e comovente. Um livro sobre bullying praticado dentro das escolas que provoca reflexões sobre as atitudes, responsabilidades e, principalmente, sobre o comportamento humano. Enfim, uma bela história sobre auto-conhecimento e o perdão.

Livro: A lista Negra|| Autor: Jennifer Brown
Editora: Gutemberg||Ano: 2012 || Gênero:  YA
 Classificação:  4 estrelas || Resenhista: Karina


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Esse é um livro que estava na minha estante há anos, mas eu não queria lê-lo no auge do hype, e essa foi uma ótima tática para driblar minhas expectativas.

“A lista Negra” vai nos contar a história da Valerie, antes, durante e depois de um tiroteio que acontece na escola onde ela faz o ensino médio; o autor desse tiroteio é o seu namorado, e os alvos de Nick são pessoas que tinham o nome na lista negra que ela criou sem intenção de punir ninguém, mas a situação muda quando Nick decide tomar medidas extremas.


O dia 2 de maio começa com uma rotina matinal como qualquer outra: após pegar o ônibus para a escola, Val encontra Nick no colégio, planeja seu dia, conta para o garoto sobre mais um episódio de bullying que sofreu no percurso. Mas o dia 2 não termina da maneira como os outros dias de aula na escola Garvin. Ao entrar, armado, no refeitório do colégio, Nick começa a procurar as pessoas da lista e atirar nelas. Val, a princípio, não entende o que está acontecendo, até se colocar entre o próximo alvo de Nick e tentar pará-lo. Antes de cometer suicídio, ele atira até mesmo em Val. Apesar de ela não ter disparado nenhum tiro, Valerie está muito mais envolvida do que conscientemente parece. 

Calma, isso que eu contei aqui não é nenhum spoiler, tudo isso acontece nas 10 primeiras páginas, e apesar de revelar todo o plot logo no início e não ter nenhum outro grande plot twist durante o desenvolvimento da história, ainda assim esse é um livro que vai causar uma montanha-russa de sentimentos. Esse é um livro não sobre o que acontece e sim sobre o porquê as coisas acontecem.

E foi assim que começou a famosa Lista Negra: como uma piada. Uma forma de descarregar a frustração. No entanto, ela acabou se transformando em algo que eu nem imaginava

Narrado em primeira pessoa, o livro é dividido em 4 partes: temos a narração do presente, onde Valerie relata o tempo de recuperação do tiro que levou na perna, e a volta para a escola; a narrativa do presente, intercalada com flashes do dia 2 de maio e também por flashes de tudo o que eram antes do dia da tragédia - tanto Nick quanto Valerie sofriam Bullying na escola, tinham problemas na família e encontraram na lista uma maneira de descarregar a raiva reprimida, e é justamente essa construção de personagem que torna a leitura uma baita de uma experiência. Já li em outros livros a história narrada pelo ponto de vista de um sobrevivente, mas o ponto de vista de uma sobrevivente, que a princípio também está envolvida com o autor dos disparos, foi a primeira vez.


As pessoas fazem isso o tempo todo - acham que "sabem" o que está se passando na cabeça de alguém. Isso é impossível. É um erro achar isso. Um erro muito grande. Um erro que, se você não tiver cuidado, pode arruinar sua vida.

Mesmo que se trate de uma história ficcional, a escolha de humanizar o atirador nos dá muito o que refletir. Obviamente, sair atirando nas pessoas é um ato condenável, porém, discutir o porquê de como a situação chegou a esse ponto é tão necessário quanto achar um culpado.

A lista funcionou para Valerie como uma válvula de escape, porém, para Nick, funcionou como uma motivação de vingança, e mesmo após ter impedido que o massacre fosse maior, o retorno à escola, após a recuperação de Valerie, não é nada fácil. Alguns a tratam como heroína, outros como tão culpada quanto Nick, e o fato indiscutível é que para toda ação existe uma reação. Como se não bastasse sofrer o que sofria antes, agora ela precisa lidar com a falta que Nick faz e com as pessoas que acham que ela não tem direito de sentir a falta do namorado dela.
Era bom fazer parte de um ‘nós’, com [...] os mesmos sentimentos, os mesmos problemas. Mas, agora, a outra metade desse ‘nós’ tinha ido embora, e [...] percebi que não sabia como me tornar eu mesma de novo.

Durante a recuperação, Val precisa se reencontrar e se readaptar. Seus planos mudaram e sua realidade já não é a mesma. Durante essa jornada, ela tem ajuda do terapeuta, o Dr. Hieler, que é o melhor personagem secundário que poderíamos querer. Os flashes dos momentos no presente nos mostram o reencontro com as vítimas sobreviventes, com os amigos, com as pessoas que estavam na lista e sobreviveram, com professores e adultos responsáveis que estão mais perdidos que ela própria e não sabem lidar com a situação, além da relação dela com os pais e o irmão.

Eu tinha mudado mamãe. Mudado seu papel de mãe. Seu papel não era mais tão fácil e claro como tinha sido no dia em que eu nasci. Seu papel não era mais de me proteger do resto do mundo. Agora, seu papel era proteger o resto do mundo de mim.


Já é de se esperar que o ambiente escolar seja mais hostil, porque uma vez que as pessoas atacam umas às outras sem motivo aparente, quando o motivo está mais “evidente”, o ataque não é tão surpreendente; mas a reação dos pais de Valerie é o que me chocou ao extremo. Eu me reservo ao direito de dizer que odeio o pai da Valerie com todas as minhas forças, acho a mãe dela uma fraca/ perdida (sem medo de julgar). 


Sabemos que podemos mudar a realidade. É difícil, e a maioria das pessoas nem tenta fazer isso, mas é possível. Você pode mudar a realidade do ódio ao se abrir para uma amiga. Ao salvar uma inimiga. (…) Contudo, é preciso ter vontade de ouvir e de aprender para mudar a realidade. Principalmente ouvir. Ouvir de verdade.


Mesmo focando na Valerie, o livro não deixa de discutir os impactos causados na escola, como um lugar, que todos identificamos como seguro, se torna palco de insegurança e de hostilidade não velada. As breves pinceladas sobre quem eram as vitimas nos jogam no meio de um exercício imenso de empatia, desde quem sofreu a tragédia até quem a causou, e apesar de ser uma realidade muito mais americana que a nossa brasileira, ainda assim dá para nos colocarmos no lugar e nos faz repensarmos o quanto nossa brincadeiras "inocentes", mas com grande cunho pejorativo, afetam as outras pessoas.
- O tempo nunca acaba- sussurrou, sem olhar para mim, mas mirando minha tela. -Como sempre há tempo para a dor, também sempre há tempo para a cura. É claro que há.

O livro termina passando o período de 1 ano desde o tiroteio, deixando a mensagem que até mesmo nas tragédias, como um tiroteio, podem e precisam ser tiradas coisas boas de fatos ruins, com um final não tão fechadinho. Mesmo assim, recomendo para todas as idades, não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de discussão. Essa foi uma leitura que me fez chorar em público com as últimas páginas, e mesmo que eu passe horas falando que essa leitura tem tudo para ser incrível, é só se jogar e depois voltar aqui para me contar o que achou!

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8 comentários :

  1. Oi!
    Eu nunca tive coragem de ler essa história porque eu acho-a pesada demais, não sei se eu consigo ler algo do tipo, tento evitar ao máximo estilos muito pesados, mas acho que o livro é essencial pra trazer esse debate a nossa vida, até porque isso é uma realidade crescente nos EUA e é importante saber o que os leva a fazer tal coisa e o que as vítimas fizeram para merecer tal coisa.
    Beijos
    http://www.suddenlythings.com/

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  2. Oi, Karina,

    Ver o antes e o depois - a mudança ocorrida na vida da personagem -, é primordial e tocante. Há de convir que sensibiliza o leitor acompanhar todo esse processo pela qual a Valerie passou.

    É um tema delicado, não só pelo bullying estar viável, mas também pela dor da perda, que também não é fácil de se conviver com ela impregnada em si.

    Sem dúvidas é um tema que precisa de mais atenção voltada para si, estar mais em pauta.

    Por o livro ser uma grande realidade - infelizmente -, a autora mostrou saber aproveitar cada página do livro para escrever uma história bem desenvolvida e importante.

    Não sei quando, mas pretendo realizar essa leitura. Espero gostar!

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  3. Uau, acho que essa história parece ser bem forte e cheia de emoções conflituosas. Humanizar o atirador e deixar uma vitima envolvida com ele e com a lista que resultou no ataque deve ser bem intenso e os problemas com a família dela parecem deixar ainda mais difícil a bida dessa protagonista. Gostei muito da resenha e surgindo a oportunidade vou querer conferir o livro sim ;)

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  4. Karina!
    Deve mesmo ser um livro doloroso e até certo ponto, incompreensível para quem está de fora da situação.
    Tem vários aspectos psicológicos que interferem na mente de quem sofre os abusos em um relacionamento e com toda certeza, nós que nunca passamos por isso, fica difícil de compreender, mas quem passa, tem lá seus inúmeros motivos para aceitar e continuar...
    Deve ser um grande drama o livro e muito sofrimento.
    Que a semana seja abençoada!
    “O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros felizes..” (Blaise Pascal)
    cheirinhos
    Rudy

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  5. Olá Karina,
    A autora tocou em um ponto que eu sempre digo sobre esse tipo de atentado, não acho que devemos aliviar a culpa de quem o fez, mas discutir e observar os motivos que o levaram aquilo é de extrema importância, para "consertar" o que está errado!
    Imagino a raiva que sentiu dos pais da protagonista, mas também, não sei como poderiam lidar com tal coisa..
    Sobre Valerie, o acontecimento foi um aprendizado sobre ela mesma e todos a sua volta.
    É um livro chocante e necessário, eu pretendo ler em breve.
    Beijos

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  6. Oi Karina!
    Li algumas resenhas bem bacanas sobre esse livro, confesso que precisei diminuir minhas expectativas sobre o enredo e espero mto ter uma chance de ler e tbm curtir mto a leitura.
    Está nos meus desejados desde o lançamento.
    Bjs!

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  7. Ta na lista, comprei no ano passado, mas não li ainda e_e"

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  8. Faz tempo que quero ler esse livro, é interessante e importante saber o que os protagonistas passam na escola e o que sentem. Leva a muitos questionamentos o que aconteceu, so que gosto de finais fechados, mas mesmo assim ainda quero ler.

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