25 abril 2018

[Resenha] Feliz Ano velho - Marcelo Rubens Paiva


Um clássico da literatura brasileira contemporânea, Feliz ano velho ganha nova edição pela Alfaguara. Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas .

   Livro: Feliz Ano Velho || Autor:  Marcelo Rubens Paiva || Editora: Alfaguara
Classificação:  4 estrelas || Resenhista: Karina
Ano:  2015|| Gênero: Autobiografia

Esse é um livro autobiográfico que reli e a experiência de revisitar minha adolescência onde eu fugia para a biblioteca da escola foi maravilhosa, embora eu tenha aproveitado o conteúdo de maneira completamente diferente, ainda sim esse é um livro que me proporcionou uma experiência de leitura bem intensa.

Como esse livro não é ficção, nem um romance de cunho romântico, odiar ou admirar os personagens é sempre meio complicado, porém, mesmo muito tempo depois, o interesse pelo autor não diminuiu. Creio que hoje a professora Liliam, lá da 7 série iria ficar muito feliz com as percepções que cheguei ao final da minha (re) leitura. 

O livro aborda um tema ainda pouquíssimo discutido na literatura, a deficiência física. Ela está pouco presente seja em livros de ficção ou de não ficção, então mesmo que você torça o nariz para a literatura nacional, esse é um argumento a mais para quem quer expandir os livros com diversidade, enfim vamos parar de falar das minhas experiências de leitura e falar sobre do que se trata o livro.

O Livro tem uma narração em primeira pessoa, extremamente informal onde Marcelo começa o livro no auge da adolescência narrando o mergulho que mudou a sua vida, num dia de farra e bebedeira com os amigos, ele decidiu mergulhar estilo tio patinhas e o preço que ele pagou foi uma fratura na 5 vértebra cervical que o deixou tetraplégico.

Tanto na primeira leitura que fiz na adolescência quanto agora na releitura, me identificar com o personagem não foi difícil, afinal quem nunca viveu a vida com a sensação de ser invencível?

[...] Foi aí que eu descobri o que é uma UTI. É uma espécie de ante-sala do céu ou do inferno. Se você entrou nela, ou morre, ou sai com profundas lesões. Eu não tinha tanta certeza se eu preferia sair ou passar pro outro lado.

Marcelo era um jovem de classe média alta, sempre rodeado de garotas e amigos, a partir do acidente viu o mundo se remodelar ao seu redor sem ter nenhum controle, enquanto seu passado era saber com quem ia passar o próximo fim de semana, agora a dúvida era como iria transar se tinha uma sonda no pênis ou ainda o quanto era frustrante não conseguir levantar o braço e coçar a própria cabeça.

Qualquer pessoa que está dentro de um profundo sofrimento, à beira da morte ou sei lá o quê, fica mística. Nessas horas, a gente apela pra tudo. Não que eu tenha me convertido à religião católica, mas estava acreditando nas simpatias, nas abobrinhas populares.

Com um humor bem ácido, Marcelo narra dos dias de internação, de fisioterapia e sempre que uma situação o remete ao passado somos levados a flashbacks, então a linha do tempo durante a narração não é muito linear, algo que me deixou meio perdida nessa releitura. É em um desses pedaços do passado que ele menciona como são as lembranças eu ele tem do pai. Marcelo é filho do ex- Deputado Rubens Paiva que foi preso, torturado e considerado “desaparecido” durante o período da Ditadura Militar no país.

Rubens Paiva não foi o único “desaparecido”. Há centenas de famílias na mesma situação: filhos que não sabem se são órfãos, mulheres que não sabem se são viúvas. Provavelmente, o homem que me ensinou a nadar está enterrado como indigente em algum cemitério do Rio. O que posso fazer? A justiça neste país é uma palavra sem muita importância.

É com um pano de fundo bem político que o Garoto precisa amadurecer e apesar de todas as experiências trágicas que passa, ele nunca se colocar na condição de deficiente que é coitado, nem daquele que serve de exemplo de superação. Ele é apenas ele e enfrenta a nova condição com doses de irritação e outras de conformismo (como todo e qualquer ser humano).

O título foi a coisa que me fez escolher anos atrás, “Feliz Ano velho” faz um trocadilho com a data do acidente que foi bem próximo ao Natal, em um acidente que mudou sua vida, por diversas vezes, Marcelo diz ter tido a vontade de cometer suicídio, o arrependimento das atitudes que o levaram até o local do mergulho possivelmente existem até hoje, se apegar ao Ano Velho e dizer adeus ao ano que vinha, fazia muito sentido e hoje, ainda acho sensacional.

De todas as partes que Marcelo narra suas aventuras “sexuais” da adolescência foi só na releitura que me dei conta do conteúdo extremamente machista que ele reproduzia (quando eu era adolescente, simplesmente achava normal que garotos classificassem garotas pelo peito, bunda etc) ainda bem que as coisas mudam, não é mesmo? E apesar desse conteúdo ser extremamente ofensivo, o próprio tinha consciência disso e enfatiza o quanto o pensamento não é correto, logo depois de narrá-lo no livro. Apesar de me incomodar não dá para ignorar o fato de que ele foi muito corajoso ao assumir exatamente como ele era, sem maquiar o comportamento que ele aprendeu a repetir durante aqueles anos.

O livro é considerado um clássico contemporâneo que eu recomendo para quem gosta de clássicos, para quem nunca leu um ou para quem quer se aventurar por pela literatura nacional. Mais alguém aqui costuma reler livros muitos anos depois ?


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12 comentários :

  1. Oi, Karina.

    Após tal horripilante acidente, com certeza a vida dele mudou drasticamente, mas acaba tendo toda uma praticidade em poder passar para o leitor todo essa nova realidade.

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    1. Apesar de tenso o ep do acidente ensina mto pro Marcelo e pro leitor...vale mto apena . Bjos

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  2. Olá Karina.
    Esse livro é um tapa na cara,muito verdadeiro na tristeza, eu acho que o autor, Marcelo Paiva representa nesse livro uma juventude e uma época, a classe média alta sem preocupações, que vivia o hoje. Muito cruel saber tudo o que ele passou. Não tenho o hábito de ler biografias,queria saber se esse livro não ficou muito datado, apesar dessa nova edição. E sobre o machismo,acho que naquele tempo esse pensamento sobre as meninas era usual,bom saber que o escritor reconhece que é errado e assume. Apesar da dor e da revolta vejo que o livro por ser direto nas colocações trás questões práticas para quem não passou e não conhece essa situação.Imagino como se fosse um diário. Triste e real.

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    1. Oi Mari , li o livro mais de 10 anos depois e acredite não ficou datado não ,obvio que as gírias já são completamente outras ...mas os adolescente continuam quase a mesma coisa, o que antes era uma festinha com baseado hoje é um role com cocaina...o Brasil retratado tem mias informação disponível porem a falta de preparo pra lidar com essa informação cont a mesma. Bjos.

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  3. Olá Karina!
    Nunca tinha ouvido flar desse livro acredita?
    Eu curto mto ler livros nacionais e fico feliz em ver o crescimento dos escritores nacionais...
    Eu gostei do tema que o autor desenvolveu, eu não tenho mto o costume de ler o gênero mas me prendeu atenção, espero um dia ler vou anotar na listinha.
    Bjs!

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    1. Oi Aline, quase não vejo ninguem falando dele eu descobri ele no colegio e agora com essa nova edicao deu vontade de reler ! Tomara que vc curta tanto quanto eu ! Bjos.

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  4. Oi Karina,
    Sim, eu amo reler livros, principalmente os da minha época de adolescente, Pedro Bandeira que o diga, adoro o autor.
    O gênero do livro não é dos meus favoritos, normalmente fujo de biografias, sendo elas escritas pela própria pessoa ou não, mas não nego que Marcelo foi corajoso em expor cada detalhe do que vivia, e como passou a viver depois do acidente, só pela resenha já conseguimos refletir em como já fizemos coisas idiotas, que por um triz não se tornaram trágicos como o narrado na história.
    Como eu disse, não entraria nos meus favoritos, mas acho a leitura válida.
    Beijos

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    1. É sempre uma delicia revisitar os livros que ja nos encantaram neh ? Tomara que vc curta a leitura.. bjos.

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  5. Não consigo reler livros devido a fila de espera dos outros rs. Já tinha ouvido falar do livro, mas não tinha lido nenhuma resenha. Não sou de ler biografias, mas achei essa interessante ainda mais que o Marcelo, não se faz de coitado como muitos em uma situação assim e que reconhece o que fez no passado. Muitos jovens se acham donos do mundo não pensam muito nas consequências de seus atos agindo imprudentemente infelizmente.

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    1. Maria é verdade que a nossa fila de leitura é eterna rs , mas com essa edição nova não aguente e revisitei ! Valeu muito a pena , observei coisas do texto que não havia observado quando eu era adolescente... Bjs

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  6. Oi Karina!
    Acho legal relermos livros um tempo depois e compararmos a nossa própria opinião, sempre mostra como mudamos. Realmente deficiência física não é um tema tão abordado nos livros apesar de ser muito importante. Acho que o livro mostra o amadurecimento, as atitudes erradas que as vezes tomamos nessa fase e que pode ter muitas consequências, e também esse lado dele de não se colocar em um lugar de coitado.
    Bjs

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    1. O legal é que o Marcelo ainda escreve , ja estou morrendo de curiosidade pra ler algo do Marcelo mais velho agora que tambem estou rs . Bjos

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