04 abril 2018

[RESENHA] Coragem - Rose McGowan

ROSE McGOWAN nasceu em um culto e o trocou por outro, mais visível: Hollywood.Rose McGowan se tornou uma das atrizes mais desejadas de Hollywood da noite para o dia quando foi "descoberta" nas ruas de Los Angeles. O estrelato logo se tornou um pesadelo de exposição constante e sexualização. Todos os detalhes de sua vida pessoal se tornaram públicos, e as realidades de uma indústria inerentemente machista emergiam a cada roteiro, papel, aparição pública e capa de revista. Hollywood esperava que Rose ficasse quieta e cooperasse. Em vez disso, ela se rebelou e impôs sua verdadeira identidade e voz.
Ela reemergiu sem roteiros nem desculpas, corajosa, controversa e sempre verdadeira. Liderando o movimento de denúncias de assédio sexual na indústria de entretenimento ao expor os crimes de Harvey Weinstein, Rose é hoje um dos rostos do movimento feminista e não hesita ao disparar verdades inconvenientes e exigir mudanças.CORAGEM é seu livro de memórias em forma de manifesto - um relato sem censura nem piedade da ascensão de um ícone millennial, uma ativista sem medo e uma força de mudança imparável determinada a expor a verdade sobre a indústria do entretenimento, trazer à luz uma indústria multibilionária construída sobre a misoginia sistêmica e empoderar pessoas ao redor do mundo a acordarem e terem CORAGEM.


Livro: Coragem || Autor: Rose McGowan
Editora: Harper Collins||Ano: 2018 || Gênero:  Autobiografia/Literatura estrangeira
 Classificação: 5 estrelas || Resenhista: Luci

Hollywood possui um glamour que é difícil não ser admirado por alguém. Suas superproduções, os artistas em destaque, os holofotes, tudo isso chama a atenção para um mundo completamente perfeito e cheio de esplendor, que influencia o sonhos e desejos de consumo de milhares de pessoas a cada ano.

Mas em Coragem, autobiografia de Rose McGowan, uma atriz conhecida principalmente por seu papel na série televisiva Charmed, temos uma perspectiva completamente diferente, pois ela foca nos bastidores desse mundo, destacando a superficialidade do sucesso e expondo o machismo e a objetificação da mulher.

Nascida e criada em uma seita, Rose tem propriedade ao comparar Hollywood com uma, e lendo sua narrativa, que retrata tudo isso de forma crua e bem objetiva, à medida que ela conta sua história de pobreza, até chegar ao sucesso, é impossível não compararmos sua vivência, o que ela demonstra, com a realidade vivida diariamente pelas mulheres, em todos os ambientes, seja o cinematográfico ou não. Dessa forma, não quero aqui descrever o que ela conta no livro, mas refletir sobre os principais pontos da sua obra. Mas quero deixar claro que essa foi a interpretação que obtive, e como a leitura é um processo subjetivo, creio que pode haver outras opniões.

O primeiro ponto aqui, é esse conceito de seita que compara Hollywood. De fato, uma seita influencia seus pensamentos, atitudes, de tal forma que você não pensa mais por si, você é apenas um objeto genérico. Diante disso, milhares de pessoas são influenciadas  a agir de acordo com modelos padrões, seja de beleza, que julgam seu peso, cabelo, roupas, a padrões de comportamento. E como isso reflete na vida das mulheres, especificamente? No caso de uma atriz, ela não terá os requisitos necessários para ser desejada pelo público masculino, pois sua imagem é vendida para ele, se não tiver o padrão desejado. Para uma mulher que não vive sob os holofotes, a busca pelo padrão de beleza também sacrifica, impõe conceitos e preconceitos, atinge profundamente a autoestima. Sim, vivemos em uma seita, que prega a beleza para você ser aceita socialmente, sem correr o risco de sofrer bullyng ou atos depreciativos. A pessoa se torna escrava de conceitos, não busca a liberdade de aceitar-se como é.


Recebemos a mensagem de que não somos suficientes um milhão de vezes. Somos vendidas para vocês, o público, como algo a ser invejado, nossa aparência faz com que vocês nos amem e nos odeiem. Na longa tradição de Hollywood, uma das mensagens é: “Você não gostaria de se parecer conosco?” Pelo menos até exagerarmos nos consertos estéticos — e então vocês começam a rir e a tirar sarro da nossa cara.

Como Rose destaca, por viver buscando esse modelo de perfeição, ela se perdeu dela mesma. Ao buscar um corpo perfeito, o sorriso perfeito, o cabelo perfeito... que resultou em um psicológico não tão perfeito. Nesse ponto da narrativa, podemos até questionar: quantas pessoas não se perdem de si, quanto nós já perdemos de nós mesmos, para atingir um ideal socialmente aceito, influenciados por uma indústria que lucra em cima disso, à custa de nossas insatisfações pessoais, ao impor um modelo inalcançável de beleza?


Diga-me a verdade: a mulher na tela faz com que você se lembre de sua mãe, de sua irmã ou de sua tia, ou da mocinha da rua de baixo? Não só na aparência — eu me refiro à atitude e ao pensamento. As mulheres têm interesses, esperanças, sonhos, aspirações. E tudo isso vai além da vontade de ser “comível”.

O outro ponto, que não posso deixar de destacar na narrativa de Rose, é a objetificação da mulher. Os bastidores de Hollywood são um reflexo de como a sociedade trata as mulheres, de uma forma geral. Muito interessante quando Rose destaca que, aos homens, desde cedo, são dados privilégios, uma liberdade ilimitada de agir como ele quiser, principalmente no que diz respeito à mulher. E quanto maior sua posição de poder, mais isso será evidente. Quando ela sofreu violência sexual, que somente anos depois ela conseguiu dar voz a esse trauma, ela percebeu como isso é verdade: ela teve que ser sufocada, teve que ver seu agressor sendo aplaudido, enquanto a ela, foi somente dada a opção de se calar. Por ser mulher. Por fazer parte de um sistema onde a figura feminina tem que ter um papel secundário, apenas como receptora dos desejos e da vontade masculina. Ou você se adéqua a isso, ou viverá no ostracismo, ou como a que procurou a situação, de acordo com mentes deturpadas.
Por que o desejo de um homem toma meu direito à dignidade? O que faz com que certos homens pensem que suas perversões são mais importantes do que o direito que uma mulher tem de existir como ser humano livre na sociedade? 

Essa autobiografia é realmente um tapa na cara, para acordarmos de um mundo ilusório que vivemos. Não tão ilusório, afinal, a realidade é constantemente jogada em nossa cara, bate em nossa porta. Um exemplo disso, é a quantidade cada vez maior de denúncias que vemos na mídia, de homens poderosos que querem estender seu poder sobre as mulheres através do abuso sexual. Campanhas afloram a cada dia contra esse tipo de violência, para que se erga uma sociedade mais consciente com relação ao papel da mulher na sociedade, que não deve ser de submissão, mas de protagonismo.

Recomendo muito essa leitura, pois em sua narrativa, ela retrata a descoberta do papel feminino, a luta interna e externa para se reconhecer e ser reconhecida como alguém com direitos e liberdade de expressar. Muitas se identificarão na questão de relacionamentos abusivos, a diferenciar o que é abuso sexual e psicológico, enfim. É o tipo de livro que "conversa" com você, que te faz perceber outras nuances do mundo ao seu redor. Há uma mensagem a ser passada que precisa ser recebida.

Rose McGowan se torna um exemplo de libertação de esteriótipos sobre a figura feminina, ao narrar toda sua história, desde a sua infância, sua adolescência conturbada,  até o momento. Ela se perdeu e se reencontrou, e nesse reencontro com ela mesma, sua voz se ergueu para denunciar os abusos que as mulheres sofrem na indústria do cinema, convidando várias outras, de vários setores profissionais, a se erguer também e romper com as amarras que prendem as mulheres durante séculos: as amarras da objetificação sexual e da desigualdade de gênero.


 Afaste-se do sistema onde você veja injustiça acontecendo. É mais importante do que nunca que cresçamos depressa. Nossa vida está em jogo, nossa mente está em jogo. Veja como temos sido tratadas e nos defenda. Não colabore com a degradação que sempre nos impõem. Não entre no jogo do sistema. Seja melhor. Pense de modo diferente. Sei que você consegue. Sei que pode mudar o mundo, começando pelo seu, tendo coragem.

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7 comentários :

  1. Oi, Lucilene.

    Bom, foi algo de extrema importância a Rose vir à tona e decidir nos trazer fatos bastantes revelantes, no qual muitas mulheres que também fazem parte desse mundo "glamouroso", passam e sofrem.

    Assunto esse, que são estimados por muitos como algo bobo, sem importância.

    Bem como esses relatos são um incentivo para que mais mulheres tenham a coragem que ela teve e expor tudo o que também sofreram e/ou sofrem!

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  2. Oi Lucilene !
    Eu não conhecia esse livro, pela resenha percebi que trata de um assunto bem atual, Infelizmente para as mulheres o mundo é machista e em Hollywood pior ainda,Ainda bem que a atriz teve coragem de vir à público e ex por todos horrores que sofreu e que muitas mulheres sofrem em todas esferas sociais.Adoro livros "que conversam" com o leitor, de grande ajuda na atualidade.Gostei da capa também , bonita e não apelativa.

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  3. Olá Lucilene!

    Li algumas resenhas desse livro e confesso que não curto mto o gênero mas este pra ser sincera chamou mta atenção, o tema talvez tenha ajudado despertar essa curiosidade em que eu me encontro pra ler e conhecer a história da atriz, espero ler em breve.
    Bjs!

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  4. Nossa. Pela capa, confesso, não esperava tanto desse livro. Mas saber os detalhes da autobiografia e os segredos por traz da fama me toca profundamente. Fiquei super interessada de ler e me sentir mais próxima da autora

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  5. Muito importante a leitura desse livro, pois o que vemos nas telas é uma coisa e por trás dela é outra, não deve ser nada fácil esse mundo da fama, assim como outros onde nós mulheres não somos valorizadas. Ouvi uma mulher falar recentemente, até quando as pessoas vão se preocupar com o corpo das outras, é triste essa realidade.

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  6. Oi Luci.
    Até mesmo eu, que não gosto de ler autobiografias, sei que essa leitura deveria ser para todos!
    Cheguei a ver as notícias sobre os assédios, não só o da Rose, mas também os próximos que vieram com ela, e é tão triste acompanhar isso por redes sociais e ver que nós mulheres, mesmo sendo a vítima, ainda somos julgadas... A atriz foi incrível em conseguir colocar em palavras tudo o que sofreu! Quero mto ler o livro.
    Beijos

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  7. Oi Lucilene!
    Concordo com você, esse livro é um tapa na cara de quem acha que Hollywood é só aquela fantasia em que todos são perfeitos. Tem muita coisa suja por ali e nós conseguimos sentir um pouco disso ao lermos esse livro. Ainda não li mas só pela resenha já tenho uma boa ideia. O nome do livro faz muito jus a escritora, pois tenho certeza que foi preciso ela ter muita coragem pra redigir essa obra. Com certeza é uma leitura a ser compartilhada.
    Bjs

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