16 dezembro 2017

[Resenha] O Bazar Dos Sonhos Ruins – Stephen King

Mestre das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil. E, antes de cada história, o autor faz pequenos comentários autobiográficos, revelando quando, onde, por que e como veio a escrever (ou reescrever) cada uma delas.
Temas eletrizantes interligam os contos; moralidade, vida após a morte, culpa, os erros que consertaríamos se pudéssemos voltar no tempo... Muitos deles são protagonizados por personagens no fim da vida, relembrando seus crimes e pecados. Outros falam de pessoas descobrindo superpoderes – como o colunista, em “Obituários”, que consegue matar pessoas ao escrever sobre suas mortes; ou o velho juiz em “A duna”, que ainda criança descobre uma pequena ilha onde nomes surgem misteriosamente na areia – nome de pessoas que logo morrem em acidentes bizarros. Em “Moralidade”, King narra a vida de um casal que vai se despedaçando quando os dois mergulham no que, a princípio, parece um vantajoso pacto com o Diabo.



Livro: O Bazar Dos Sonhos Ruins | | Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras || Ano: 2017 || Gênero: Terror, Suspense, Mistério
Classificação: 4 estrelas || Resenhista: Uta


Stephen King é mundialmente conhecido pelos romances que parecem gerar um combustível inesgotável para adaptações cinematográficas, mas, onde ele realmente brilha e se torna um dos melhores autores estadunidenses de ficção é nos formatos de histórias curtas ou novela/conto. O Bazar dos Sonhos Ruins é uma antologia que traz, no todo, vinte dessas histórias breves. Todas com introduções do autor para cada uma, que eu mais que recomendo a leitura (não pulem, façam-se o favor). 

A capa com uma cabeça sem o rosto e em seu lugar com uma paisagem de floresta bem agourenta (a figura da morte à espreita, um barco meio afundado, dois cervos inocentes, borboletas esqueletais, galhos nascendo como cabelos e um corvo como “cereja do bolo”) forma uma imagem fascinante. Quanto ao conteúdo, o primeiro conto, “Milha 81”, já vem com aquela cara de Stephen King. A introdução revela que livro dele serviu de referência. 

Algumas histórias não são histórias de horror nem sobre o sobrenatural, mas todas elas, das mais aptas a agradar o grande público ou não, trazem um “horror” próprio. A exemplo de “Batman e Robin têm uma discussão”, onde um filho vai fazer o seu passeio semanal com o pai que sofre de Alzheimer. “Premium harmony” traz a história de um casal que vai ao Walmart com o cachorro. São pessoas normais em situações comuns, mas que sofrem reviravoltas e em fração de segundos são surpreendidas (não no bom sentido) pela vida.

Agora eu tentarei falar um pouco de todos os contos do livro na ordem em que são apresentados sem dar spoilers e instigar ou não a sua vontade de lê-los. 

Milha 81

Um posto velho e abandonado num desvio da rodovia, um adolescente tentando se afirmar. Um ótimo começo para uma história de terror.

Um dos maiores do livro, um terror King clássico, com personagens bem “reais” e uma trama envolvente quer você queira ou não. Mais uma vez, um dos motivos de King ser tão bom em contos é por conseguir agarrar o leitor pelos cabelos em poucas páginas.

Premium harmony

Curtinho, sombrio e cheio de humor negro que pode ser desconfortável para quem não é acostumado com essa marca registrada do King. Bem triste, de cortar o coração. 

Batman e Robin têm uma discussão

Nada de super-herois por aqui, mas essa analogia de dupla dinâmica segue pai e filho cuja relação é comprometida por uma doença muito presente, mas ainda pouco compreendida. King retrata o Alzheimer de forma majestosa e a interação entre os dois é o que rege a trama. História bem concentrada no desenvolvimento dos personagens, intensa e incrivelmente curta para atingir o que consegue. 

A duna

Um dos mais enigmáticos, conta a história de um juiz da Suprema Corte e de uma pequena ilha (sem nome) na Costa do Golfo na Flórida, próxima de onde o próprio King tem uma casa. Conto cheio de fantasia e terror.

Garotinho malvado

A história provavelmente vai virar mais um filme, mas até o momento não existe previsão de filmagem. Essa ideia parece muito óbvia depois que você lê o conto, e se pergunta: “Como ninguém transformou isso em um filme ainda?” (a publicação do conto foi em 2014). 

O título já diz o que esperar, um pirralho malvado, mas é bem mais do que isso. Sobrenatural, sobre um homem condenado à morte que se recusou a falar até pouco antes da execução, onde conta toda a história para o defensor público que lutou até o fim pelo seu caso na justiça. A história que ele conta é beeem tensa e o final é ainda mais. 

Uma morte

A história se passa no velho oeste, com uma trama cheia de suspeita, preconceito, mas com uma super reviravolta. Coisas nunca são o que parecem e o que torna tudo mais interessante é que não tem nada de sobrenatural nela.

A igreja de ossos

Um dos menores do livro, mas não vá se enganando. Na verdade, não é uma história em si, é um poema de verso livre que conta uma. São as divagações poéticas de um bêbado, mais conhecido como o nosso velho amado/odiado narrador não confiável. 

Moralidade

Excelente escrita e de leitura rápida, entra para a lista dos favoritos, e mais um com um título auto-explicativo. Até onde se vai por dinheiro? Um conto sombrio, um terror com um elemento moral. Fantástico.

Vida após a morte

Quem leu A Dança da Morte vai se lembrar da cidade de Hemingford, Nebrasca, mas as similaridades param por aqui. A questão do que há no além, depois que damos o último suspiro. Tem quem acredite em céu, em inferno, em reincarnação, mas no fim, certeza ninguém tem de nada.

UR

Mais novela do que conto, mostra ligações com a Torre Negra. O personagem central é um professor, no sentido tradicional da função, que tem um amor profundo por livros, mas, depois de certos acontecimentos, decide testar tecnologias mais modernas, comprando um Kindle. Na época, todos os Kindles eram brancos e para o professor chega um cor de rosa. Será que as diferenças param por aí?

Herman Wouk ainda está vivo

Conta o destino de dois grupos cujas vidas se cruzam em um dado momento. Em um há duas mulheres frustradas com o desenrolar de suas vidas, junto com uma cambada de filhos, e em outro um par de poetas idosos, curtindo um piquenique na beira da estrada. Tocante.

Indisposta

Perturbadora, sobre um casal de meia idade com uma cachorrinha muito fofa. Essa provavelmente vai apavorar muita gente por um bom tempo. Nozzy, o refri, aparece mais uma vez (quem leu A Torre Negra ou assistiu a série The Kingdom Hospital vai lembrar ).

Blockade Billy

Mais uma novela, sobre beisebol e um cara com esse apelido que parece ser a única alternativa de um time, mesmo não sendo, inicialmente, o que eles procuravam . A história é contada como se o King a tivesse ouvido do treinador do time na época (fim dos anos 1950). 

Mister delícia

Uma das histórias inéditas, com título pornográfico, segue dois amigos em uma casa de repouso (asilo), onde um tem algo a contar ao outro. São reminiscências da vida nos anos 1980, sobre ser gay nessa época e o boom da AIDS. 

Tommy

Poema de 4 páginas em verso livre, triste e de torcer o coração, escrita para uma pessoa que o King conheceu, o que o torna a tristeza ainda pior. Tá avisado.

O pequeno deus verde da agonia

Esse tem até versão em quadrinho no site do autor, é só pesquisar. Sobre dor física e a paciência que é preciso ter em uma recuperação lenta (a agonia é um deus baixinho e verde). Meio auto-biográfico, resultado do atropelamento que o King sofreu em 1999. Um clássico.

Aquele ônibus é outro mundo

Imaginar como são as vidas das outras pessoas é algo muito comum. Quem nunca se perguntou o que acontece quando os outros chegam em casa, como é o ambiente e ainda não tem a certeza de que cada lar é um mundo à parte provavelmente nem é humano.

Wilson, o personagem principal, está em uma viagem de negócios, acaba preso em um congestionamento e faz essas indagações. Adoro como esse cara consegue tirar leite de pedra das coisas mais simples e transformar tudo em história.

Obituários

Inspirado em um filme chamado I Bury The Living, em uma tradução literal, Eu Enterro Os Vivos, o personagem tem o sonho de ser jornalista, mas depois de várias negativas acaba pensando em se candidatar a um emprego em publicidade, pela qual ele sente desprezo. Então, ele vê uma história sobre a morte de uma celebridade, escreve um obituário tirando onda e consegue um emprego em um desses sites de fofoca bem baixos. Só que, claro, há uma trama sobrenatural que se revela, a la Stephen King. 

Fogos de artifício e bebedeira

Outro título bem explicativo, com um personagem conhecido reaparecendo, sobre mãe e filhos que parecem dispostos a gastar tudo que têm em álcool. Uma comemoração do dia da indepedência acaba gerando uma guerra com os vivinhos ricos que vivem do outro lado do lago. O desencadear dessa disputa é hilário.

Trovão de verão

Aqui temos um sobre o fim do mundo causado por guerra nuclear, um sobrevivente e seu cachorro isolados em uma cabana na floresta. O único contato que ele tem com outro humano é com um senhor idoso. Pra quem tem pavor de histórias apocalípticas: essa é curta, mas não vai deixar de te apavorar.

Quem está acostumado a ler antologias sabe que por mais que sejam curtas, cada história tem a sua individualidade e no final, você sente que está lendo mais de um livro fininho. Ou será que isso acontece porque sempre li boas antologias? Se esse for o caso, prefiro continuar tendo essa sensação e devorar uma ótima coleção como se estivesse lendo vários livros. 

Nada melhor para convencer a leitura da coleção do que a propaganda do próprio Stephen King:

“Tudo que você vê foi feito à mão, e apesar de eu amar cada um deles, fico feliz em vendê-los, porque os fiz especialmente para você. Fique à vontade para examinar todos, mas tome cuidado, por favor. Os melhores têm dentes.”

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10 comentários :

  1. Ainda não li nenhum livro de contos do autor, só os normais mesmo. Premium Harmony parece ser divertido e que assusta também. curiosa com Milha 81 adoro terror e envolvente então fica melhor. Garotinho Malvado deve ser muito bom ainda mais que daria um filme, espero que sim. Parece que todos são muito bons, preciso ler.

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    1. Oi, Maria Alves!
      Leia mesmo, tenho certeza que vc vai encontrar as suas pérolas no meio de todos esses contos.
      Bjs!

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  2. Tenho um apreço enorme por este livro deste autor, e de todos e o que eu mais me interesso pela leitura, pois os contos apesar de curto possui suas individualidades, porém ainda sim consegue nos surpreender, envolver, e questionar a estória descrita. Confesso que tenho altas expectativas a respeito desta obra, e não vejo a hora de ter oportunidade de lê-la.

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    1. Nossa, Lana, vale MUITO à pena!
      Um abraço!

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  3. Oii
    Ah, me surpreendi com os lançamentos de contos do King, nunca fui fã de contos, mas claro que do mestre eu não posso deixar de ler.
    Ainda não tenho o livro, mais já estou doida para comprar, principalmente porque todos os contos estão fascinantes de me deixaram curiosa, o autor tem disse né, consegue conquistar o leitor com pouquíssimas páginas!
    A capa é bem sugestiva, bem cara de terror e imaginei que os contos iriam focar nesse gênero, achei interessante essa mesclagem! Já tá nos desejados ..
    Beijos

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    1. Vitória, a capa é um primor mesmo, eu PRECISAVA falar dela. Ela é só um prelúdio do conteúdo maravilhoso e vai compensar o seu investimento, vai por mim. ❤

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  4. Adoro os livros do Stephen King só me falta ler esse livro e o novo dele com o filho é impossível não gostar de algum livro dele a leitura prende você do início ao fim

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    1. Isso mesmo, Carolina, o cara é foda!
      Boa leitura!

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  5. Nossa pelo visto temos um livro recheado de contos de terror do mestre Stephen King!! Adoro os livro dele e esse que tem contos tão maravilhosos de terror não pode escapar da minha lista de desejados!!
    Bjoss

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