19 junho 2017

[Resenha] A Guerra Que Salvou a Minha Vida


Ada tem dez anos (ao menos é o que ela acha). A menina nunca saiu de casa, para não envergonhar a mãe na frente dos outros. Da janela, vê o irmão brincar, correr, pular – coisas que qualquer criança sabe fazer. Qualquer criança que não tenha nascido com um “pé torto” como o seu. Trancada num apartamento, Ada cuida da casa e do irmão sozinha, além de ter que escapar dos maus-tratos diários que sofre da mãe. Ainda bem que há uma guerra se aproximando.
Os possíveis bombardeios de Hitler são a oportunidade perfeita para Ada e o caçula Jamie deixarem Londres e partirem para o interior, em busca de uma vida melhor.

Livro: A Guerra que salvou a minha vida|| Autor: Kimberly Bradley
 Editora: Darkside
Classificação: estrelas || Resenhista: Amanda
 Ano: 2017


"- Ela não é fácil, mas vou lutar por ela. Eu luto por ela. Alguém tem que lutar."

Para mim, a Darkside se tornou símbolo de qualidade literária. Especialmente o selo Darklove. Até agora, não li um livro desse selo que não me emocionasse, que não me fizesse rir e suspirar. A força que os personagens tem e a forma como superam as dificuldades é de enternecer e motivar qualquer um. Com "A Guerra que salvou a minha vida" não foi diferente.

Ada tem dez anos e tem uma deformidade no pé direito, essa deficiência, considerada até mesmo banal para recém-nascidos, é a maior vergonha de sua mãe e a razão por trás de a menina nunca ter saído de casa. Ada nunca teve amigos, nunca foi à escola... ela sequer sabe o que é a grama. 

Não tem como não ler esse livro e sentir muita raiva da mulher que se intitula mãe de Ada. É uma mulher extremamente ignorante, mesquinha e egoísta, mas mais tarde voltamos a falar sobre isso. 

A oportunidade de conhecer o mundo do lado de fora surge com a guerra. Hitler está às vésperas de bombardear Londres e as crianças começam a ser evacuadas. Jamie, que é o irmãozinho mais novo de Ada, não tem nenhuma deficiência, portanto tem a permissão da progenitora para sair à rua, brincar e frequentar a escola. Não que ele também não apanhe sem razão, mas ainda era digno de alguma atenção e cuidado, por ser "normal". Quando a notícia chega a casa de Ada, a mãe diz que está cogitando deixar Jamie ser evacuado junto com as outras crianças, mas que Ada jamais sairia dali.

Desesperada, a menina que nunca tinha andado, que só rastejava pela casa cuidando dos afazeres domésticos e do irmão - porque ela prestava para isso tá, gente?! Ela só não era digna de ser vista pelas outras pessoas - começa a treinar a andar. E nós acompanhamos de perto o sofrimento dessa criança.

"Quando as coisas ficavam muito ruins, minha cabeça dava um jeito de escapulir. Eu sempre soube fazer isso. Podia estar em qualquer lugar, na minha cadeira ou dentro do armário, que conseguia não ver nada, não sentir nada. Eu simplesmente sumia."

Não tem como não se emocionar, a menina sentia dor apenas em encostar o pé no chão. Mas ela anda. Um passo, cai. Dois passos, cai de novo. Mas não desiste. E ela começa a andar com os dois pés. E aprende a lidar com a dor. Ada passou a vida inteira sentindo dor, nunca recebeu qualquer tratamento, então, para ela, era apenas um obstáculo necessário a ser transpassado. Porque odiava ficar sozinha. A ideia de ficar sozinha com aquela mãe era pior do que a dor. 

Se essa mulher fosse real, - embora eu saiba que existam muitas dela por aí - eu gostaria de ter cinco minutos com ela, sinceramente. Batia nas crianças, colocava Ada num armário embaixo da pia de castigo, enquanto a menina gritava e chorava, apavorada com a escuridão e as baratas que subiam pelo corpo dela e que não conseguia enxergar para matar. Isso me deu tanto, mas tanto ódio, que vocês não tem noção. Ela não tinha medo de barata fora dali. Matava tranquilamente, mas era estar trancada no escuro com bichos escalando seu corpo que a deixava em um frenesi de pânico, porque ela desenvolveu ataques de pânico lá dentro, enquanto a mãe ficava rindo do lado de fora.

Quanto mais se aproxima a data da evacuação, mais confiante Ada vai se sentindo e mais tempo treina, assim que sua mãe sai, ela começa e só pára quando a mãe retorna. Mesmo o Jamie não sabia que ela já era capaz de andar. Então, quando o dia chega, ela está preparada. Acorda o irmão de manhã bem cedo e sai com ele escondida, deixando a mãe para trás dormindo.

Mas, as coisas são mais difíceis do que ela imaginava. Logo percebe que o chão da rua é bem diferente do chão de sua casa, é desnivelado e isso é mais um desafio. Ela começa então a tropeçar, cair e chega uma hora em que precisa rastejar. Ao chegar perto da escola - finalmente - Jamie (que tinha apenas seis aninhos) a ampara e a ajuda a entrar.

E dá certo. Eles conseguem chegar a Kent, que é a cidade onde as crianças refugiadas vão se abrigar e vão parar com Susan. 

Susan é uma pessoa difícil. Ela é resmungona e mal humorada e desde o início não quer cuidar de criança nenhuma. Está sofrendo ainda a perda da melhor amiga e afundando a cada dia, um pouco mais na dor, e não quer ter que se preocupar com ninguém. Mas não tem escolha e as crianças são abrigadas em sua casa, sob sua responsabilidade. A personalidade de Ada logo a ganha, porque a menina, apesar de reprimida, tem personalidade. Ela é independente e essa característica impressiona Susan, que estranha uma menina tão nova e ainda por cima deficiente, ter aquele nível de maturidade. Aos poucos, eles vão se conhecendo e se afeiçoando uns aos outros e vão aprender o verdadeiro significado da palavra família, que não tem absolutamente nada a ver com sangue.

"- Vocês salvaram a minha vida, isso sim.
- Então agora estamos quites."
É um livro maravilhoso. A Kim (depois de uma guerra, acho que posso dizer que somos íntimas...! hahaha) tem uma escrita linda, fluída e envolvente. A história é real, está acontecendo naquele momento, você sofre e ri junto. 

Amei a Ada, o Jamie, a Susan e todos os personagens que vão aparecendo eventualmente (não vou contar muito para não estragar a leitura de ninguém, mas todos são ótimos). O que achei mais legal é que não tem romance. Claro que você imagina se mais adiante um climinha não vai surgir entre um ou outro personagem (que eu não vou dizer quem, mas quem ler vai crushear também que eu sei!), mas é um livro que fala mais sobre família, superação, luta e persistência

Começamos a pensar em como temos sorte. Não apenas de ser saudável, mas de ter uma família acolhedora e amigos que estão presentes para nós. De saber que podemos sair a hora que quisermos e fazermos aquilo que quisermos e como nem todo mundo pode fazer isso. É um livro sobre liberdade. Não apenas de escolher, mas de ser quem você é. Um livro que todos deveriam ler e que eu gostaria que você lesse também.

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3 comentários :

  1. Oi Amanda!
    Que resenha linda, adorei!
    o livro tá impecável, qro mto conseguir ler em breve, a edição tá excelente, capa e enredo perfeitos!
    Bjs!

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    Respostas
    1. Espero que você consiga ler, ele é perfeito! *-*
      Bjoss

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  2. Quero ler, deve ser uma graça a história apesar do sofrimento da personagem, parece ser muito comovente e mexer com as emoções do leitor, a personagem é um grande exemplo de garra e coragem, tão nova e ja enfrenta desafios pela frente. Quando ler vou passar raiva com essa mãe dela.

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