[Resenha] Como um Romance - Daniel Pennac

Como Um Romance
Daniel Pennac


Mais que um ensaio, Como um romance é uma declaração de amor ao ato de ler. Num relato inteligente, poético e divertido, Pennac questiona, através da recriação ficcional do ambiente de uma sala de aula, a razão de os jovens não gostarem de ler.
Baseado em suas próprias experiências como professor, ele ensina – e aí reside todo o charme do livro – como recuperar nos alunos o gosto pela leitura, um ato esquecido neste fim de século dominado pela comunicação em massa. Acima de tudo, Pennac quer mostrar que o ato de ler é um ato de prazer e não de obrigação.
"Desde o início do ano escolar, leio em voz alta para meus alunos cerca de 70 livros, entre peças de teatro e romances. Depois, eles escolhem alguns desses para ler. Por fim, fazemos uma feira, em que os próprios alunos vendem ou derrubam um livro, de acordo com suas próprias opiniões. Foi assim que os fiz gostar de Calvino e García Marquez", explica Pennac.
O autor cria também uma espécie de 'decálogo' dos direitos do leitor -- constituído não de deveres, mas de direitos imprescindíveis ao leitor: entre eles o direito de ler qualquer coisa, e de só ler o que se gosta, o de ler em qualquer lugar e até mesmo o direito de não se gostar de ler. "O prazer não se comanda", ensina.
"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é uma companhia que não substitui qualquer outra, mas que nenhuma outra companhia saberia substituir."
Esse livro me surpreendeu muito. Em todos os meus anos de leitora, eu nunca tinha me deparado com um livro assim. Ele me foi indicado pela minha professora de Mediação de Leitura, e mais do que a recomendação, foi a frase que ela usou que me convenceu a ler: todo leitor deveria ler esse livro, mas especialmente, o leitor que almeja algum dia formar outros leitores. É a mais pura verdade.

Como ensinamos alguém a gostar de ler? Isso ao menos é possível? Como podemos fazer isso? Primeiro passo: lemos para eles. Pode parecer algo bobo, mas faz muita diferença. Para encantar alguém é primeiro preciso encantar a si mesmo, se permitir o prazer de imaginar e sentir prazer com a história, se envolver... Para envolver o outro. Quantas vezes nós já não contamos sobre um livro a um colega de blog, um amigo, um parente e o nosso entusiasmo os entusiasmou a ler também?
"E se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?"
Nós não podemos obrigar ninguém a ler. Mais importante: não devemos querer que alguém leia algo por pura obrigação, porque isso estraga a leitura. A sombra do dever, da falta de escolha, tira todo o encanto que a leitura pode nos oferecer.
Esse livro nos traz a perspectiva tanto do leitor quanto dos pais e outros educadores, responsáveis em passar o livro adiante. Nós conseguimos sentir o peso que a obrigação da leitura faz sobre os ombros do jovem. Assim como também vemos as boas intenções de quem está apenas querendo ajudar a passar algum conhecimento, infelizmente, da pior forma possível.
"Uma leitura bem levada nos salva de tudo, inclusive de nós mesmos."
O livro é pequeno, com capítulos curtos, que facilita bastante a leitura também para quem não gosta ou está começando a ler. Ele fala dos direitos do leitor, que eu achei muito legal: ler o que quiser, reler o quanto quiser, etc.
O melhor desse livro é que não existe alguém que não se identifique. Tanto a pessoa que gosta quanto a que não gosta de ler é capaz de se ver ali, de se identificar com as leituras obrigatórias da escola, da cobrança por ler um livro mais cult de um autor renomado. Daniel Pennac nos abraça. Ele entende que você não precisa gostar de ler, que ninguém é obrigado a ler, mas que antes de qualquer coisa deve ser uma decisão, um presente que você se permite dar a si mesmo.
"A questão não é se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não a felicidade de ser leitor."

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