08 julho 2016

[Resenha] Persépolis - Marjane Satrapi

Persépolis
Marjane Satrapi



Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita - apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.
Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.
Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama - e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.


E hoje vamos de resenha em quadrinhos, uma autobiografia linda de Marjani Satrapi, desenhado por ela mesma, que na verdade foi publicado em quadro volumes, mas lançado pela Companhia da Letras em um volume único.

Em Persépolis, Marjane retrata sua infância no Irã, seu encontro com o Ocidente aos 14 anos e também a sua vida adulta. Como ela viveu nesse período o início e o pós da Revolução Islâmica, o livro contém reflexões bem reais sobre o momento, que parece “integrar” o leitor ao livro, participando sobre todo o drama da sociedade iraniana.

Marjane, cuja família tinha pensamentos bastantes liberais para a sociedade iraniana e envolvida com os movimentos sociais, teve uma educação que desde o início a fez refletir sobre política e sociedade, a idealizar sobre um futuro mais igualitário, ao mesmo tempo que se percebia nesse contexto social.


Mesmo diante de uma sociedade guiada pelo extremismo religioso, onde o ocidente era visto como sinônimo de corrupção dos jovens, ainda assim nunca deixou de se expressar da forma como queria, e isso se refletia inclusive na forma de se vestir.


No entanto, a intensificação da guerra Irã-Iraque, as crueldades desses conflitos chegavam cada vez mais perto dela, horrorizando mais ainda a jovem que já conhecia os horrores da guerra, mas nunca presenciou de forma tão crua.


Para afastar a filha dos horrores da guerra, os pais de Marjane decide enviá-la para estudar em Viena, separando-a da família e da sua cultura para colocá-la em um ambiente desconhecido, mas que lhe traria a segurança e a liberdade.



Em Viena, Marjane se depara com o choque cultural, e inevitavelmente sofre o preconceito dos que a consideram diferente e o quanto é difícil se adequar a uma realidade totalmente oposta de dela. E aprende que a intolerância não vem apenas do extremismo religioso, mas de pessoas que não sabem abrir sua mente e olhar para o outro sem um filtro que o classifica e o isola.


Depois de muitas desventuras, após um período de 04 anos morando em Viena, em que ela parece ter se perdido, a ponto de não conseguir reconhecer mais a si mesma e seus próprios valores, ela pede para voltar para o Irã, onde mais uma vez se depara com a limitação da liberdade e as consequências cruéis da guerra. Mas, mesmo diante de tantos desastres, sempre é possível procurar e encontrar algo bom.


A jovem Marjane, ao voltar a se estabelecer emocionalmente, decide definir sua vida, não se calando diante daquilo que a reprime, sempre expressando suas opiniões, mesmo correndo o risco de ser duramente castigada pelos que vigiam e estabelecem as ordens nas instituições do país. Dentro do seu grupo social, pode até ser considerada uma revolucionária por não ter medo de expressar seus pensamentos.


E firmando-se nos propósitos que a sua família a educou, Marjane retoma a personalidade que parece ter se perdida durante algum tempo, fazendo-a buscar um futuro mais emancipador, o tão sonhado pelos seus pais, que afirmam constantemente a terem criado para viver livremente.     






Ao escrever Persépolis, Marjane Satrapi não mostra somente sua história para o mundo; ela nos apresenta uma sociedade que conhecemos somente ao ver os noticiários na TV, sem parar para refletir o que há por trás do extremismo religioso e em uma sociedade guiada por ele.

Impossível não se emocionar com a crueldade da guerra visto sob a ótica da Marjane criança, e como isso, em certo momento, moldou sua forma de agir, assim como não tem como admirar a Marjane adulta por ser uma figura feminina que não deixou que seus anseios e sua visão de mundo fossem reprimidos por uma sociedade que inferioriza tanto os direitos das mulheres.

O que mais me chamou a atenção foi justamente as diferenças culturais entre ocidente e oriente, e como isso guia a vida das pessoas e as fazem ter muitas vezes um olhar preconceituoso sobre culturas diferentes.

Nesse sentido, ler esse livro não é apenas uma forma de apreciar uma boa leitura, mas sim aprofundar o conhecimento que temos sobre o outro e desmistificar alguns conceitos.

Recomendo esse livro para pessoas de qualquer idade, pois, na simplicidade de cada desenho, revela-se uma profundidade de coisas que nem sequer imaginamos, fazendo-nos rever conceitos como liberdade e direitos sociais mais básicos.

                       

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18 comentários :

  1. Olá
    Essa deve ser uma obra muito interessante, especialmente por ser em quadrinhos e ainda conseguir expor detalhes tão impactantes, seja diante da cultura, da guerra e afins. Não sei como ainda não tinha ouvido falar da obra, mas espero poder ter a oportunidade de ler també

    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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    1. Fer, espero que logo consiga ler e apreciar muito!

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  2. Oi Lucy,
    apesar de ser uma grafic novel, acredito que esse livro não possa ser menos que intenso. Me interessei bastante por essa história, mesmo me sentindo tão incomodada com as coisas que acontecem nesses países oprimidos por uma cultura tão injusta e desigual, sinto que é importante tomarmos conhecimento dos absurdos que ocorrem mundo a fora para que não fiquemos tão confortáveis na nossa bolha de liberdade, certamente irei procurar para ler.

    Abçs
    Nosso Mundo Literário

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    1. Delmara,você colocou muito bem. De fato, nos faz ter uma visão mais ampla.
      Bjos

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  3. Preciso ler essa HQ. Que bela forma de apresentar aos leitores sua própria biografia na infância, usando da arte e da narrativa para isso. Eu gostei muito das suas impressões e acho que me emocionaria lendo Persépolis. Concordo que só sabemos pelos documentários televisivos sobre o cenário de guerra no Oriente... Infelizmente, essa realidade parece tão distante que acabamos por ignorá-la. É uma crueldade da nossa parte, também, não dar voz a essas pessoas.

    Beijos!
    www.myqueenside.com.br

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    1. Francine, mesmo diante de tanto extremismo que vemos quase diariamente na TV, ler uma obra dessa, escrita por quem viveu de perto, nos faz ver a situação sob um novo prisma. É uma leitura obrigatória.

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  4. Olá Luci,
    Não tenho o costume de ler HQs e tenho muita curiosidade em relação a essa, pois acho que é uma forma de conhecermos um pouco a história de Marjane e outras culturas.
    Acho que é uma obra que agrega demais em todos os sentidos e isso é muito importante. Outro ponto interessante é que o livro faz o leitor rever alguns conceitos.
    Anotei a dica de leitura.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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    1. Bruna, gostei tanto que acabei indo procurar a animação com a história. Super indico!

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  5. Apesar de ser um livro em quadrinhos não tira a real essência do livro tratar sobre a religião e a desigualdade e realmente o que vc disse traz todo sentido mesmo que vejamos notícias na tv sobre o caso não é a mesma coisa de que ler e se envolver no caso.

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    1. Isso mesmo, Leticia, foi uma leitura enriquecedora.
      Bjos

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  6. Oi Luci!
    Já vi a resenha desse livro em outro blog e fiquei super curiosa. Primeiro por ser em quadrinhos e segundo por abordar um tema que é tão pertinente desde sempre, eu acho... Bom saber que cada vez mais as mulheres estão tendo voz, mesmo que seja por meio da escrita, em culturas que ainda consideram a mulher um ser inferior... Bj
    http://colecionandoromances.blogspot.com.br/

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    1. Sophia, e é incrível como Marjane ousou, mesmo em meio a tanta opressão, que não teve o poder de sufocar a personalidade dela.

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  7. Persépolis foi uma das melhores leituras que já fiz na vida... uma das partes que mais me chocam e emocionam é a do bracelete, a do tio dela tbm foi muito triste...
    acho válida até pra usar em sala de aula, nas minhas aulas de história...
    Essa edição da Cia é linda, quero muito ter meu exemplar, porque o que li foi emprestado...
    bjs...

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    1. Sim, foi muito emocionante essas duas cenas. E depois como ela, depois das decepções, decide retomar sua vida e seu verdadeiro eu.

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  8. Olá! Essa é a primeira vez que tomo conhecimento da obra, e eu adorei a ideia. Gostei do fato de ser um quadrinho, algo lúdico para abordar assuntos tão impostante e delicado. Fiquei super instigada a conhecer a obra, e já anotei a dica!

    Beijos,
    Dai | Blog Virando a Página

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    1. Daiane, realmente é uma leitura indispensável, espero que você logo a leia e goste assim como eu.

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    2. Daiane, realmente é uma leitura indispensável, espero que você logo a leia e goste assim como eu.

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  9. Eu não acredito que não conhecia esse livro. Achei simplesmente encantador. Primeiro por tratar-se de uma biografia de uma menina iraniana, e depois por trazer essa biografia em forma de quadrinhos. Amei a ideia! Parece-me que a leitura dessa obra constitui-se em um excelente oportunidade para pensar criticamente em questões que envolvem a intolerância. Adorei, dica anotada!

    Tatiana

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