[Resenha] Menina Má - William March

Menina Má
William March


Publicado originalmente em 1954, MENINA MÁ se transformou quase imediatamente em um estrondoso sucesso. Polêmico, violento, assustador eram alguns adjetivos comuns para descrever o último e mais conhecido romance de William March. Os críticos britânicos consideraram o livro apavorantemente bom. Ernest Hemingway se declarou um fã. Em menos de um ano, MENINA MÁ ganharia uma montagem nos palcos da Broadway e, em 1956, uma adaptação ao cinema indicada a quatro prêmios Oscar, incluindo o de melhor atriz para a menina Patty McComarck, que interpretou Rhoda Penmark.
Rhoda, a pequena malvada do título, é uma linda garotinha de 8 anos de idade. Mas quem vê a carinha de anjo, não suspeita do que ela é capaz. Seria ela a responsável pela morte de um coleguinha da escola? A indiferença da menina faz com que sua mãe, Christine, comece a investigar sobre crimes e psicopatas. Aos poucos, Christine consegue desvendar segredos terríveis sobre sua filha, e sobre o seu próprio passado também.

"Em primeiro lugar, gente de bom coração raramente nutre suspeitas. Não conseguem imaginar outras pessoas fazendo coisas que são incapazes de fazer. (...) Além disso, quem é normal tende a visualizar o assassino em série como alguém tão monstruoso por fora como o é por dentro, o que não poderia estar mais longe da verdade."

Menina má foi uma leitura muito interessante, tem um ritmo moderado e acredito que é um livro para ser degustado. Ele não é um livro pesado, até porque foi lançado originalmente nos EUA em 1954 e o forte dele é a pegada psicológica. Ele trás um tema que pode ser considerado um tabu, que é a ideia de uma criança psicopata e com isso, faz o seguinte questionamento: A maldade é algo adquirido ou você já nasce com ela? 
Esse é um tema recorrente em aulas de filosofia, quem já estudou sabe. Segundo Leibniz, podemos considerar o mal em um sentido metafísico, físico ou moral. O mal metafísico consiste na simples imperfeição; o mal físico no sofrimento; o mal moral no pecado. Eu acredito, particularmente, que todos temos esse potencial dentro de nós, mas alguns estão mais predispostos a isso do que outros, seja por traumas subsequentes ou uma condição biológica/genética.

Apesar de tudo, Cristine - mãe de Rhoda - é a personagem principal da trama. Cristine é uma mulher cândida, muito dócil e subserviente, que está sempre dando o melhor de si para criar a filha em um ambiente seguro e estável, além de cumprir suas obrigações sociais, o que na época era algo de extrema importância. 
O marido passa a maior parte do tempo viajando, por isso durante a maior parte do tempo, ela vive sozinha com a filha. Depois de um acidente estranho com um coleguinha de escola de Rhoda, a menina é afastada do colégio que alega não saber exatamente como lidar com a postura distante e fria da menina. Os pais sempre souberam que havia algo diferente com a criança, no entanto, sempre atribuíram as atitudes da menina como um sinal de amadurecimento precoce. 

"... quanto à parte da culpa, não era nenhuma autoridade em dar conselhos, já que ela mesma se vira atormentada por culpas irracionais a vida inteira. Era uma coisa tão tola, tão ilógica se sentir assim que, quando você olha objetivamente, só era possível entender esse fenômeno como uma forma dolorosa de vaidade."

Cristine passa a observar a filha com mais atenção e a lembrar de uma série de situações estranhas, envolvendo a menina e isso acaba atiçando preocupação e aflição na mente da jovem mãe. Quando começa a investigar casos de assassinato, ela se depara com uma história que a instiga e faz com que comece a procurar saber mais sobre seu próprio passado. No entanto, esse conhecimento recém adquirido abalará suas convicções e ameaçará a vida bem estruturada que construiu para si mesma.

Rhoda é uma criança peculiar, todos percebem isso, mas acham encantador. Uma menina tão jovem e já tão independente. O que ninguém parece perceber é a frieza dotada pela menina. Mesmo os movimentos mais simples são calculados com cuidado, visando demonstrar recato e inocência. Chega a ser perturbador, gente. E ela tem uma inteligência que é uma característica registrada da psicopatia.

"Qualquer um dos incidentes talvez pudesse ser minimizado como um desses infortúnios inevitáveis que acontecem em toda parte e com todo mundo; mas, tomados juntos, comparando-se as semelhanças entre ambos os mistérios, o efeito era mais forte, mais difícil de ser relevado pelo simples raciocínio lógico."

Mesmo aos oito anos, a menina percebe que ela é diferente, que não sente as coisas que as outras pessoas parecem sentir, é simplesmente incapaz de demonstrar qualquer empatia. Como uma forma de contornar isso, ela passa a observar os outros, suas reações e usa seu "charme" para mascarar sua incapacidade de se comportar como uma pessoa normal. 
No livro, inclusive há uma passagem - em um dos estudos de Cristine - que mostra os psicopatas como seres humanos mais próximos aos primeiros humanos ou selvagens que viviam antigamente, onde não havia o conceito de sociedade ou moral e a linha entre o certo e errado eram praticamente inexistente.

O livro ainda mostra um pouco do machismo da época, a ideia de que quem precisa ser realmente inteligente é o homem, e a mulher só precisa ser bonita e conseguirá um bom casamento - afinal, o que mais uma mulher poderia desejar na vida, não é?


36 comentários:

  1. Oi! Você me deixou com Muita vontade de ler esse livro. Sua resenha está incrível. Preciso desse livro logo.
    Beijos!
    http://nomundodaka.blogspot.com.br/

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    1. Hey, Karol!
      Que bom que gostou *-*
      O livro vale muito a pena, a Rhoda é uma criatura fascinante. E a edição está linda - como esperado da Darkside <3

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  2. Adorei a resenha, apesar de não fazer o meu tipo de livro e uma história que me deixa curiosa, irei pegar com meu amigo ele tem parceria com a dark, ganhou o livro e surtou, rsrs.
    Parabéns pelo trabalho.

    Beijos

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    1. Olá, Karine!
      Que sortudoooo, também queremos :O KKKK
      Pega mesmo, vale super a pena <3

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  3. Oiee

    Eu já li e achei muito bom e interessante. Realmente o forte do livro é o lado psicológico das coisas. Eu devorei em poucos dias, gosto muito do gênero.
    Excelente resenha!

    bjs
    Fernanda
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Fernanda!
      Muito bom, né? Vamos pedir pra Darkside mandar mais um desse que ainda ta pouco <3 kk'
      Bjs

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  4. Oie, tudo bem?

    Fui "apresentada" ao título por conta de um debate entre psicólogos. Quando eles discutiram que não existe sociopatia, que ninguém nasce bonzinho e vira um monstro. Ouvi falar novamente do livro em uma matéria sobre um menino inglês de 10 anos que violentou e matou outro menino, de 3 anos. Os traços de psicopatia, a maldade inerente e os defensores dos direitos humanos afirmando que era uma crueldade julgar um menino de 11 anos - idade dele na época do julgamento - como adulto. A defesa apenas rebateu que ele não era uma criança inconsequente, porque escolheu um oponente que não imporia resistência.

    Esse livro é ótimo, excelente recomendação.

    Bjss
    Bel

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    1. Olá, Bel!
      Fascinante, não é? Terrível, claro, mas fascinante. Adoro o tema da psicopatia, é um dos ramos pelos quais mais me interesso na psicologia. Como podem existirem seres humanos tão profundamente desprovidos de qualquer tipo de empatia. E como isso parece ter um efeito significativo na capacidade de raciocínio deles, a ponto de parecer às vezes que as emoções inibem nossa capacidade intelectual - e às vezes inibe MESMO hahaha
      Beijos! *-*

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  5. Olá
    Esse livro está na minha lista, desde que vi a darkside anunciando.
    Excelente resenha, só me deixou mais instigada a ler.
    Bj

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    1. Hey, Rosana :D
      Que bom, tenho certeza de que vai gostar. Acredito que possivelmente seja um dos melhores do gênero <3

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  6. Estava doida por esse livro, agora depois dessa resenha.
    Beijos

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    1. Hey, Gab!
      Corre pra ler, que é muito bom *-*

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  7. Resenha incrível! DarkSide é uma editora que só publica livros tops e o trabalho de diagramação no modo geral é espetacular. Amei a premissa do livro, acho que vou colocar na lista dos desejados.

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    1. Olá, Rafael!
      Coloca sim, vai gostar ;)
      Dar é amor demais, né? Já tenho 3 lançamentos deles pra chegar e outros que eu comprei e ainda não li *-*

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  8. Olá
    Estou curiosa com esse livro desde o lançamento, sempre gostei muito de livros que pensam o psicológico dos personagens, eu tenho uma posição sobre a maldade, e eu acho que ela existe sim.
    Beijos

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    1. Olá, Dani :D
      É sempre bom um livro que nos instiga, que nos faz pensar mais e questionar nossos conhecimentos *-*

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  9. Olá,

    Eu estou morrendo de vontade de conhecer essa leitura, saber como a personagem infantil pode ser realmente uma vilã é uma grande reviravolta. Espero em breve ter a oportunidade de ler esse livro.

    Abraços
    colecoes-literarias.blogspot.com.br

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    1. Olá :D
      De fato, a vilã ser uma criança é o que mais nos atrai para a leitura. Espero que goste do livro também!
      Beijos

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  10. Olá,
    Lendo sua sinopse eu só consegui fazer referência ao livro Precisamos falar sobre o Kevin, onde o menino também é um sociopata, psicopata.
    É muito interessante saber o que se passa na cabeça de uma pessoa assim e entender como elas fazem para manipular os outros, e a maneira fria deles de agir...
    Realmente um livro muito interessante, e parabéns pela sua resenha.
    Beijos :*

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    1. Olá,
      Tenho muita vontade de ler esse livro! Está na lista KKKKKK
      A verdade é que nunca entenderemos exatamente o que se passa na mente deles, não é? Eu acho que só entendemos até certo ponto, porque é a ausência de caráter moral, de empatia que os faz dessa forma, algo que nós temos. Logo, só podemos fazer suposições e conjecturas sobre esses indivíduos. E acho que esse é o verdadeiro desafio, o que nos instiga a querer saber mais.
      Obrigada pelo seu comentário, espero que goste do livro!
      Bjs ;)

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  11. Oi, Amanda
    Esse livro deve mesmo levantar esse questionamento de se a maldade já nasce com a pessoa.
    Estou muito curiosa para ler esse livro, ainda mais pelos elogios.
    Não sabia ainda que o livro também abordava o machismo.

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    1. Olá,
      Ele levanta o questionamento e até mesmo te induz, de certa forma, a acreditar nessa premissa através da história de Rhoda.
      E o machismo era algo bem presente nessa época e nos traz a ideia de que uma mulher que diz o que pensa e que age de acordo com seus próprios desejos e demandas é uma mulher excêntrica. Foi uma das coisas que mais gostei... os vários subtemas/questionamentos/teorias nas entrelinhas. Dá muito o que pensar.

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  12. Oie! Eu evito ler livros assim, pesados, assustadores, enfim, de terror rsrs, pq sou bem medrosa. Mas, eu achei bacana o que você falou, que ele questiona se a maldade é algo que a pessoa adquire ou já nasce com ela. Eu bem acredito que já nasça, apesar de acreditar também, que o meio em que vive pode transformar uma pessoa. Tipo, se uma criança não tem amor e tem pais violentos, futuramente ela tem tudo pra ser igual. Acredito nisso.
    Bom, apesar de ser medrosa, depois da sua resenha eu até fiquei curiosa com o livro.
    Bjo
    www.viciadosemleitura.blog.br

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    1. Hey, Bianca :D
      Ah, mas nem é terror vai! kk
      Ele não é assustador, oque realmente impressiona é a capacidade da criança para a maldade, a frieza e a - por que não dizer? - "cara de pau" dela em tentar descaradamente tentar chamar atenção pra si mesma, agindo de forma inocente e fofa, pra mascarar o comportamento passivo-agressivo dela.
      E uma coisa curiosa é que ela cresceu cercada de amor e carinho, viu? Acredito que possa existir uma pré-disposição maior em algumas pessoas, independentemente do ambiente ou da criação (embora essa pré-disposição possa sim, ser agravada por ambos os fatores).
      Beijossss

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  13. Oi

    sabe que essa foi a primeira resenha que li desse livro? eu já o conhecia, mas não sabia exatamente o que esperar dele!

    adorei a sua resenha e gostei muito de conhecer um pouco mais do livro. Em geral eu não gosto de leituras com crianças, mas esse me conquistou, graças a sua resenha!!!

    bjs

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    1. Olá, Denise.
      Que bom saber que contribuí positivamente de alguma forma, espero que goste do livro tanto quanto eu <3

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  14. Oie, Amanda!
    Esse livro está nos meus top desejados. Quero muito ver como o autor abordou a psicopatia na infância, mas pelo jeito ele focou mais no psicopata "clássico", o que por um lado é bom, pois outros aspetos seriam ainda mais chocantes para a época.
    Beijinhos
    Anna - Letras & Versos

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    1. Hey, Anna.
      Exatamente, até porque nessa época existiam mais teorias do que casos concretos, mesmo hoje nós não sabemos ainda não podemos determinar com absoluta certeza sobre como a psicopatia se dá e como trabalhar isso. Há um vídeo de uma menininha que sofreu abuso na infância - anjo mau? Não lembro agora, mas é algo do gênero - e que acabou tão traumatizada que começou a exibir sintomas de psicopatia, mas como ainda era pequena, os pediatras e psicólogos que acompanharam o caso, acreditavam que poderiam, com tratamento e acompanhamento, reverter esse quadro ou ao menos minimizá-lo o bastante para que ela pudesse viver normalmente.

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  15. oi Amanda! Já li várias resenhas e essa foi a primeira que comentou que fala sobre como mulheres e homens eram vistos na época. Acho que até hoje essa cultura de que mulher foi feita pro lar ainda não se apagou totalmente.
    Eu não leio esse livro pq não sei lidar com leituras pesadas assim! Mas a capa é fabulosa!
    Bjs, Mari

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    1. Olá, Mari :D
      De fato, mesmo enquanto eu lia, fiz alguns paralelos com relação a visão da mulher naquela época e de hoje. A verdade é que 1954 se foi, mas muita gente ainda vive lá... e isso é bem triste, uma vez que pra se evoluir tanto como sociedade, quanto como indivíduo, o ser humano deve estar em constante mudança.
      E eu posso te garantir que o livro tem mais questionamentos e teorias sobre a psicopatia do que violência real. Não é um livro nenhum pouco assustador, apesar do que a capa pode sugerir.
      Bjs ;)

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  16. Oi Amanda, a capa dessa obra está incrível, o enredo me atrai bastante e pretendo conferir em breve. Parabéns pela resenha!

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    1. Oi, Raquel!
      Confesso que também fui atraída pela capa num primeiro momento. Mas foi a história que me conquistou <3
      Espero que você também goste.
      Beijos

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  17. Oi Amanda,
    adorei sua resenha, não conhecia o livro e fiquei impressionada por ser tão antigo. Deviam fazer um filme rsrsrs
    Gosto muito desse tema, principalmente por ser professora e as vezes me deparar com crianças muito diferentes umas das outras, observar as peculiaridades de uma criança psicopata é algo que me atrai. Parabéns pela resenha.

    Bjs!
    Fadas Literárias

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    1. Olá, Anne.
      Na verdade tem sim um filme, mas ele é tão antigo que é em preto e branco (https://www.google.com.br/search?q=bad+seed+filme&rlz=1C1JPGB_enBR696BR696&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwizyPrioK3NAhVGUJAKHaGtDQIQ_AUICSgC&biw=1280&bih=575) kkkk
      E que legal. Realmente é bem interessante. Especialmente porque nem as educadoras da escola sabiam o que fazer com ela - a ponto de no final optarem por retirá-las da instituição...
      Bjs

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  18. Oie
    muito legal sua resenha, eu to louca pelo livro e apaixonada por essa edição, como sempre a editora caprichou, adoro o gênero e espero poder ler em breve

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  19. Olá Amanda!!!
    Esse livro me faz relembrar "Precisamos Falar Sobre O Kevin" que eu li há muito tempo atrás e acho que realmente é um tema polêmico, pois as pessoas acham complicado uma criança talvez ser um psicopata até mesmo quando a gente fala pareca absurdo.
    Eu tô com uma curiosidade sobre esse livro, pois por ler Kevin e achar a história toda intrigante esse me lembrou muito e me despertou curiosidade.

    lereliterario.blogspot.com

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Laura Lendo...

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